A opinião de ...

Nó, em fim de linha…

Por ali, naquele sítio, de barulho intenso, vive a azáfama diária do boliço citadino, dos da cidade e dos viajantes que neste ponto se cruzam. O rio Tejo, exausto da caminhada, agachando-se sob a passagem da última ponte, na antevisão do aconchego do mar que o espera num afetuoso abraço de delta, com o farol do Bugio como testemunha, mostra-nos sempre a quietude, o sereno, a paz, e a feliz possibilidade do estender da vista.
Acostados, bem amarrados, soberbos paquetes, cidades flutuantes, carregados de sonhos, vendedores de ilusões, transportam os novos descobridores, em fuga da rotina quotidiana, sôfregos do desconhecido, fixadores de imagens, gozando a liberdade de errar, ausentes de identidade, ansiosos dos badalados afetos da hospitaleira portugalidade.
Por aqui, neste Terminal de Cruzeiros, de Carrilho da Graça, o luxo e opulência, de mãos dadas, passeiam-se despreocupados e à vista de todos, filas intermináveis de autocarros gama alta passearão por Lisboa e arredores estes vasculhadores mais de coisas do que de pessoas. Cá de baixo, do empedrado do cais, avista-se, lá muito no alto, o cume destes monstros dos mares onde, lá por dentro, fervilha máquina bem oleada, fabricadora de ilusões, sugadora de aforros, potenciando o efémero deslumbramento. Restaurantes, casinos, galerias da luxuria, teatros, passeios de vaidades, luzes das mil e uma noites, espelhos replicadores do hoje que nunca serão o amanhã das nossas vidas, mostram-nos a soberba, o outro lado, a outra face social.
Atravessando a 1.ª Circular, mesmo defronte, tudo na zona do Jardim do Tabaco, ali se encontra, de cara lavada, olhando-nos nos olhos, um louvor aos dentistas, a Estação de Santa Apolónia, Santa Apolónia de Alexandria. Esta Virgem Mártir Cristã foi obrigada a renegar a fé. Recusando-se foram-lhe arrancados os dentes e desfeita a angelical face sendo, sua imagem, reconhecida por um torniquete e um dente que transporta agarrados às vestes. A azáfama diária, de saídas e entradas de passageiros que aqui se entrecruzam vindo e indo de todas as partes de Portugal, mentalmente ausentes desta brutal encruzilhada, levam nos olhos o sustento das vidas que levam.
Este edifício, de fachada neoclássica foi inaugurado em 1865 no reinado de D. Luís I, encontra-se no sopé de Alfama entrincheirado ali bem perto da muralha Fernandina. Lá dentro uma placa relembra a História, aqui chegou, vindo da epopeia do Porto, afrontando a Ditadura pela Presidência da República, o General Sem Medo, Humberto Delgado.
O Metro com seus carris completa os caminhos do formigueiro humano que por aqui deambula num rodopio. Todos juntos, milhares de olhos humanos que por aqui passam diariamente, talvez na maior encruzilhada do país, ninguém reparou numa Mãe em infernal vivência de absoluto abandono, neste Nó, em fim de linha…

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