A opinião de ...

Há vidas que parecem perdidas até alguém lhes tocar com amor

Num tempo em que quase tudo se substitui, o gesto mais raro talvez já não seja reparar o que se partiu, mas permanecer diante daquilo que quase todos deixaram de acreditar que ainda pode ser salvo.

Há oficinas onde o tempo abranda sem pedir licença. A luz entra inclinada pelas janelas antigas, o pó permanece suspenso no ar como uma memória e as ferramentas gastas repousam sobre as bancadas com a serenidade das coisas que aprenderam a durar. Não se ouvem vozes altas nesses lugares. O silêncio tem ali outra espessura. Quase parece que as coisas feridas deixam de ter vergonha de existir.
Naquela oficina havia tábuas encostadas às paredes, pedaços fendidos pelo tempo, superfícies deformadas pela humidade e pelos Invernos. Restos esquecidos que qualquer olhar apressado classificaria como inúteis. Não tinham o brilho das coisas novas nem a perfeição intacta daquilo que ainda não foi atravessado pela vida. E, no entanto, o velho carpinteiro movia-se entre aquelas madeiras como quem percorre um arquivo de histórias humanas.
Havia qualquer coisa de desarmante na forma como tocava a madeira rachada. Não com pena. Não com nostalgia. Mas com respeito.
Um dia perguntaram-lhe porque insistia em guardar peças tão gastas. Aproximou-se lentamente de uma prancha marcada por uma fenda profunda, passou os dedos pela madeira e respondeu apenas: “depende das mãos que a seguram”. Depois permaneceu em silêncio durante alguns segundos, como se soubesse que certas frases precisam de cair primeiro dentro de nós antes de começarem a iluminar alguma coisa. E acrescentou: “há madeira que já não serve para impressionar ninguém. Mas ainda pode servir para sustentar uma casa”.
O problema é que passamos demasiado tempo a olhar para pessoas cansadas sem realmente as vermos.
Há quem continue a cumprir horários, a responder a mensagens, a sorrir nas fotografias e a atravessar dias inteiros como se nada estivesse a acontecer. Basta, porém, olhar um pouco mais devagar para perceber que existem vidas sustentadas por equilíbrios quase invisíveis. Pessoas que aprenderam a esconder o cansaço para não incomodar ninguém. Pessoas que transportam perdas antigas em silêncio, tentando sobreviver sem deixar cair demasiado de si pelo caminho.
Uma das grandes violências do nosso tempo está nesta incapacidade de permanecer diante da fragilidade sem a transformar imediatamente em desconforto, impaciência ou distância.
Habituámo-nos a admirar apenas aquilo que parece forte, eficiente, luminoso. Como se o valor de uma vida dependesse da sua capacidade permanente de impressionar. Pouco a pouco, começámos a tratar as pessoas da mesma forma que tratamos os objectos: aquilo que perde brilho passa rapidamente a parecer substituível.
É por isso que existe tanta solidão escondida em lugares aparentemente normais. Há pessoas que não precisam, antes de tudo, de respostas perfeitas, discursos motivacionais ou soluções rápidas. Precisam de encontrar alguém diante de quem não seja necessário fingir força o tempo inteiro.
O amor começa muitas vezes aí. Não no instante em que alguém resolve a vida do outro, mas no instante em que permanece. Quando continua a olhar para uma pessoa sem a reduzir às suas falhas, ao seu cansaço ou às suas ruínas. Quando reconhece dignidade mesmo naquilo que já perdeu quase tudo.
O velho carpinteiro sabia isso. Ele não olhava apenas para aquilo que a madeira tinha perdido. Olhava para aquilo que ainda podia nascer dela.
Deus é exactamente assim. Não se deixa impressionar pela perfeição intacta, mas comove-se com a possibilidade escondida dentro daquilo que o mundo já classificou como inútil. Não descarta a madeira ferida. Toca-lhe, espera, trabalha-a por dentro e devolve-lhe uma forma que ela própria já não imaginava possível.
Há vidas que só continuam de pé porque alguém, um dia, decidiu não desistir delas. E uma civilização começa a desumanizar-se no exacto momento em que deixa de saber permanecer diante da fragilidade humana.

Edição
4090

Oferta para Assinantes

Cartão Moeve