A casa de todos
A Catedral de Bragança completou 25 anos. É uma idade jovem para um templo desta natureza, sobretudo quando comparada com os séculos de história de outras catedrais portuguesas. Mas, por detrás desta juventude, existe uma espera muito antiga. A catedral teve um parto difícil, atravessando gerações, projetos, promessas e obstáculos até ganhar o lugar que hoje ocupa na cidade e na vida da diocese.
O extenso e meritório trabalho de Susana Cipriano e Abílio Lousada, publicado no Mensageiro de Bragança da semana passada, permite compreender a dimensão desse percurso: 233 anos de ambição, seis projetos conhecidos, sete Bispos envolvidos e outros tantos locais equacionados. Entre o sonho de 1768 e a inauguração de 2001, houve fundações abandonadas e sucessivas tentativas de dar a Bragança uma catedral condigna. Os séculos decorreram sobretudo na espera pela concretização de uma vontade, retomada por diferentes gerações.
Já no século XX, o caminho continuou atribulado. Discutiu-se a localização, um anteprojeto foi rejeitado pelo Governo e, quando a construção finalmente avançou, a insolvência da empresa responsável interrompeu os trabalhos. Esta história recorda quanto uma obra pode depender da persistência de quem acredita nela, mesmo quando tudo parece aconselhar a desistência.
A 7 de outubro de 2001, D. António José Rafael pôde finalmente dizer: “Bragança, aqui tens a tua Catedral”. A frase encerrava uma longa espera e entregava à cidade uma responsabilidade: fazer daquele edifício uma presença viva.
Hoje, a única catedral portuguesa inaugurada de raiz no século XXI constitui uma singularidade de que Bragança se pode orgulhar. A sua linguagem contemporânea acrescentou uma nova expressão ao património religioso da região. Também neste Nordeste Transmontano, tantas vezes associado à conservação do passado, houve capacidade para criar, arriscar e deixar uma marca do nosso tempo.
O aniversário foi assinalado com a presença do Núncio Apostólico, D. Andrés Carrascosa Coso, na sua primeira visita à diocese. A vinda do representante do Papa deu particular significado à celebração. Para uma comunidade afastada dos grandes centros, estes gestos de proximidade acabam por ser reconfortantes e tornam visível a pertença à Igreja universal e recordam que a distância geográfica deve ser vencida pelo encontro.
Em declarações à Agência Ecclesia, D. Nuno Almeida colocou a gratidão no centro destas bodas de prata. Recordou o esforço de D. António José Rafael, dos benfeitores e das autoridades que tornaram possível a construção. Reconheceu também o contributo de D. José Cordeiro para liquidar as dívidas que ficaram.
Mas o aniversário pede também que se olhe em frente. À Ecclesia, o Bispo manifestou o desejo de que a catedral seja “espaço também de formação e de caminho em conjunto”, reunindo periodicamente as paróquias e comunidades, sem diminuir a sua intensidade pastoral. É uma orientação que dá conteúdo à celebração e aponta uma tarefa para os próximos anos.
Numa diocese marcada pelo envelhecimento, pelo isolamento e pela dispersão das comunidades, esse encontro ganha especial importância. Conhecer outras experiências, partilhar dificuldades e preparar respostas comuns pode fortalecer quem trabalha diariamente nas paróquias. A catedral pode ser o lugar onde essa colaboração se aprende e se alimenta, com consequências na vida de todo o território.
