Produto para o tratamento do cancro dos castanheiros em vias de ser legalizado para comercialização geral
O Dictis, o produto desenvolvido pelo Instituto Politécnico de Bragança para o tratamento do cancro dos castanheiros do Nordeste Transmontano, está mais perto de receber a autorização para chegar ao mercado. Para já, a autorização provisória foi renovada por mais cinco anos pela Direção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), num protocolo estabelecido com o IPB na passada quinta-feira.
Mas o objetivo é mesmo levar o produto para a comercialização normal. “Estamos a preparar o dossiê para os próximos anos. Temos agora aqui uma renovação da autorização por mais cinco anos, mas esperamos antes dos cinco anos ter o processo completo para homologação como produto comercial”, frisou o presidente do IPB, Orlando Rodrigues.
O mesmo responsável admite que a demora de todo o processo é “um problema” mas que “é necessário”.
“É um problema, obviamente, para quem está deste lado e submete um processo destes. Mas também se percebe que dadas as implicações para um produto normal (que não é o caso deste pois este é um fungo que existe na natureza e, portanto, não tem impactos), mas, naturalmente quando se introduz um produto químico no mercado tem obviamente que haver rigor. Temos que entender que o processo é complexo porque tem que ser complexo. Aqui é um caso específico que está um bocadinho à margem, mas temos que aceitar as regras e, portanto, fazer o melhor possível. O que importa é resolver o problema dos agricultores e isso está a ser conseguido”, sublinhou Orlando Rodrigues.
O presidente do IPB explicou, ainda, que um processo desta magnitude é muito complexo e que a rentabilidade do produto acaba por não ser grande precisamente pelo seu sucesso após a aplicação, pois deixa de ser necessário repetir os tratamentos.
“Trata-se de um produto biológico, mas mesmo assim as exigências são estudos que normalmente têm uma complexidade que obrigam a investimentos muito avultados e que não estão ao nosso alcance. Aqui há a perspetiva de que, tratando-se de um produto biológico, possa haver um processo mais simplificado e nós estamos exatamente agora nesta fase a preparar o dossiê para pedir a homologação do produto como produto comercial, o que dará outra liberdade. De qualquer forma, este meio de tratamento é um meio de tratamento muito específico, que os fungos têm características diferentes em diferentes geografias. Este está adaptado ao nosso fungo, daí que se não tivéssemos sido nós a desenvolvê-lo não se poderia importar de outra região porque [os fungos que originam a doença] são diferentes e só tem eficácia aqui na nossa região. Depois de estar implantado no terreno, fica sempre instalado e não precisa de novas aplicações”, resumiu.
Por outro lado, Orlando Rodrigues admite que, “nessa perspetiva, não é um produto com interesse comercial que viabilize um investimento a longo prazo”.
“É um produto com grande impacto económico, mas uma vez que esteja o problema resolvido, ele fica resolvido para sempre, em princípio, embora precise de alguma manutenção. Portanto, daí que também faça sentido fazer uma aplicação experimental como tem sido feita nos últimos 10 anos”, disse.
Mais de 100 mil tratamentos já efetuados
O Dictis foi desenvolvido de forma experimental pela investigadora Eugénia Gouveia, que se mostra satisfeita por esta renovação da autorização provisória.
“Representa que os castanheiros têm mais hipóteses de sobrevivência, de recuperarem e de ficarem vigorosos e portanto é muito bem-vinda esta autorização e que os agricultores também ficam muito contentes com esta possibilidade de continuar a fazer os tratamentos”, sublinhou a investigadora do IPB.
“Já funciona num sistema que pretende ser muito eficaz e ser aplicado de forma correta. O IPB faz cursos de formação, faz ações de divulgação, as câmaras participam em muitas atividades deste programa, financiando inclusivamente os projetos, tivemos um projeto do PT2020, aplicaram-se tratamentos em 100 mil castanheiros em Bragança, Vinhais e Macedo Cavaleiros, o que significa que é um grande apoio quando todas as entidades colaboram”, disse.
O Dictis já é comercializado a título experimental desde 2015 e apresenta, segundo Eugénia Gouveia, uma alta taxa de sucesso.
“Se não se fizesse nada, ao fim de cinco anos os castanheiros estavam mortos e estão quase todos vivos. É preciso sempre fazer alguma retificação, há alguns onde não funciona por outros motivos, mas quando é aplicado de forma correta e para as condições corretas, um tratamento significa salvar o castanheiro, porque não é preciso repetir como acontece nos outras substâncias ativas utilizadas, como com os pesticidas. Este é um produto biológico que atua diretamente no fungo que é patogénico e, dessa forma, o castanheiro deixa de reconhecer o fungo como parasita e pára o crescimento e promove o desenvolvimento de sítios novos e funcionais. É um sistema altamente eficaz, altamente específico e que não interfere nem com a saúde humana, nem com o ambiente. Portanto é um produto que tem todas as vantagens”, destacou Eugénia Gouveia, apontando uma eficácia “a rondar os 95 por cento”.
