Nordeste Transmontano

Bruno Veloso quer reorganizar PS de Bragança e recuperar “causas” para o distrito

Publicado por António G. Rodrigues em Qui, 06/11/2026 - 11:50

Bruno Veloso, candidato à presidência da Federação Distrital de Bragança do Partido Socialista, defende uma reorganização interna do partido e a criação de novas “causas” capazes de recuperar a confiança dos cidadãos e responder aos principais problemas do território.

Depois de formalizar a candidatura, na quinta-feira, Bruno Veloso afirmou que a organização do PS é uma das linhas centrais da moção política, criticando a ausência de debate, reflexão e reivindicações estruturantes para o distrito nos últimos anos.

“O Partido Socialista não tem existido enquanto partido naquilo que é a discussão, a reflexão e a necessidade de criar causas que vão ao encontro dos interesses das populações”, afirmou.

Segundo o candidato, nos últimos “10 ou 15 anos”, o PS não apresentou “uma única causa” mobilizadora para o distrito de Bragança. Os próximos dois anos, num período em que considera pouco provável a realização de eleições, devem servir para reorganizar o partido e definir novas bandeiras políticas.

A colaboração entre a Federação Distrital, as estruturas concelhias e os autarcas socialistas assume, por isso, um papel central na candidatura.

“As concelhias e as autarquias do Partido Socialista não podem ter políticas diametralmente opostas. Têm de se concertar”, sustentou, defendendo a criação de políticas de âmbito regional em áreas como a habitação.

Bruno Veloso considera que o PS não deve limitar-se a apresentar reivindicações ao Governo, devendo também aproveitar a capacidade de intervenção das autarquias no próprio distrito.

Ligações a Vimioso e Zamora entre as prioridades

Ao nível das infraestruturas, o candidato defende a retoma de duas reivindicações que considera fundamentais para o território.

Uma delas é a melhoria da ligação rodoviária a Vimioso, cuja concretização, advertiu, não pode continuar dependente de anúncios e promessas.

“Não bastam anúncios, não basta termos painéis a dizer que a obra vai arrancar. Temos de passar à ação”, afirmou.

A segunda prioridade é a ligação entre a autoestrada em Quintanilha e Zamora, em Espanha. Bruno Veloso defende uma atuação articulada com os socialistas, autarcas e instituições espanholas para pressionar o Governo de Madrid a concretizar o troço em falta.

“Há uma via estruturante fundamental, que é a ligação da autoestrada de Quintanilha a Zamora”, sublinhou, acrescentando que o Governo português deve exigir ao executivo espanhol a conclusão daquela infraestrutura.

O candidato recordou que, no passado, a parte portuguesa era frequentemente a que ficava por executar nos acordos rodoviários bilaterais, situação que agora se terá invertido.

Demografia e economia devem ser tratadas em conjunto

Bruno Veloso identifica a demografia e a economia como os dois principais problemas do distrito de Bragança, defendendo que devem ser abordados de forma articulada.

“Sem demografia, a economia não funciona. E sem economia, perdemos população”, resumiu.

Na sua perspetiva, o Estado deve criar condições para a fixação de habitantes e para a atração de investimento, recorrendo a incentivos fiscais, apoios às empresas e mecanismos de cooperação com as autarquias.

O objetivo, explicou, não é o Estado substituir-se ao funcionamento do mercado, mas criar condições específicas para compensar as fragilidades de um território envelhecido, de baixa densidade e afastado dos principais centros económicos.

O candidato entende ainda que o envelhecimento da população origina maiores custos na saúde, emergência médica e apoio social, exigindo políticas diferenciadas relativamente às regiões do litoral.

Neste contexto, reafirmou a defesa da manutenção do helicóptero do Instituto Nacional de Emergência Médica na base de Macedo de Cavaleiros.

Bruno Veloso recordou que esta resposta surgiu como compensação após a redução do funcionamento dos Serviços de Atendimento Permanente e representa não só uma capacidade de emergência médica, mas também “uma perceção de segurança” para as populações.

“É uma valência importante, que tem salvado muitas vidas”, salientou.

Reforçar agricultura e reconhecer erros

Na área agrícola, o candidato considera necessário reforçar a presença dos serviços públicos que prestam apoio técnico aos agricultores.

Bruno Veloso criticou a perda de relevância da estrutura regional da agricultura, que classificou como uma das últimas instituições descentralizadas do Estado no distrito.

O socialista defendeu igualmente que o partido deve reconhecer os erros cometidos enquanto esteve no Governo, considerando que esse reconhecimento é indispensável para recuperar a confiança dos eleitores.

“Um partido só é capaz de continuar com futuro se souber reconhecer os seus próprios erros e fragilidades. Reconhecer os erros não é uma fraqueza, é uma virtude”, afirmou.

Para o candidato, a reforma dos serviços regionais de agricultura provocou uma “perda enorme” para o território, alertando que o esvaziamento das estruturas públicas é difícil de inverter depois de concretizado.

Candidato critica degradação do serviço postal

A moção inclui também uma posição sobre o funcionamento dos CTT, uma matéria que Bruno Veloso considera ausente do debate político, apesar das queixas da população.

O candidato criticou a degradação do serviço postal e os efeitos sentidos pela imprensa regional, nomeadamente ao nível da distribuição de jornais.

Embora não defenda a renacionalização da empresa, Bruno Veloso considera que os CTT se transformaram “mais num banco” do que numa entidade preocupada com o serviço postal de proximidade.

No distrito de Bragança, acrescentou, os carteiros desempenhavam tradicionalmente um papel de confiança junto de uma população envelhecida, incluindo na entrega de reformas através de vales postais.

“O carteiro era um elo de confiança entre uma instituição pública e o cidadão”, afirmou, defendendo a criação de mecanismos que garantam um verdadeiro serviço postal público, com qualidade, proximidade e confidencialidade.

O candidato criticou ainda o levantamento de correspondência registada em espaços comerciais sem condições adequadas de privacidade.

Politécnico como âncora do desenvolvimento

Bruno Veloso considera o Instituto Politécnico de Bragança uma das principais âncoras do desenvolvimento económico regional, através da transferência de conhecimento, inovação e apoio ao empreendedorismo.

O candidato defende uma cooperação mais forte entre o Politécnico, as autarquias e as empresas, acompanhada de apoios destinados à fixação e manutenção de novos projetos empresariais.

A atração de população e de emprego qualificado deverá também passar, segundo a moção, por políticas fiscais diferenciadas para os territórios do interior.

Na área da energia, Bruno Veloso considera que o distrito deve beneficiar de parte da riqueza produzida através dos recursos hídricos, eólicos e solares.

O socialista recordou a existência de processos judiciais relacionados com dívidas fiscais das empresas detentoras das barragens, num valor que estimou em cerca de 360 milhões de euros, defendendo o pagamento dos impostos devidos.

“A riqueza gerada tem de ficar, em parte, no nosso território”, declarou, esclarecendo que não se trata de uma posição isolacionista, mas de garantir solidariedade e compensações para uma região que contribui para a produção energética nacional.

Bruno Veloso destacou ainda os elevados níveis de pobreza energética existentes no território, defendendo que a produção local de energia deve traduzir-se em receitas para os municípios e em investimento no bem-estar das populações.

Mobilidade e novo pacto de confiança

A dificuldade de mobilidade dentro do distrito é outra das matérias incluídas na moção. O candidato alertou para a forte dependência do transporte individual, em contraste com as alternativas existentes no litoral.

Bruno Veloso pretende que os próximos dois anos sejam utilizados para reorganizar o PS, aprofundar o debate interno e criar causas reconhecíveis pela população.

“Não existe um partido assente em valores, princípios e ideologias se não tiver causas para apresentar à população”, declarou.

O objetivo, acrescentou, é construir “com lealdade um novo pacto de confiança” com os cidadãos do distrito de Bragança, sem abdicar das “linhas vermelhas” representadas pelos princípios e valores socialistas.

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