A coexistência pacífica
O Papa Francisco em “O Espírito da Quaresma e da Páscoa”, afirma que “[…] Na vida apressada que levamos deve ter-se a coragem de parar e escolher. […] Persiste o risco de aceitar passivamente determinados comportamentos, sem nos surpreendermos perante as realidades tristes que nos circundam”.
Perante estas afirmações, creio devermos ter em conta que, enquanto somos forçados a suportar o medo e a ansiedade com que esta vida constantemente nos perturba, não será demais parar, escolher e decidir.
Então, uma subjacente indignação nos forçará a refletir sobre a turbulência humana mundial em que nos encontramos, enquanto nos vemos obrigados a não silenciar as suas origens e consequências.
Refletir sobre tal conjuntura, sobretudo quando nela nos vemos envolvidos e atingidos, mesmo à distância e sem grandes sobressaltos, é de crer que possa surgir em nós um ímpeto que nos fará pensar seriamente no assunto. Afinal, embora parecendo alheios aos terríveis acontecimentos, ora ofensivos, retaliatórios ou vingativos que vão criando feridos, vítimas mortais, destruição e consequente dor que daí advém, não deixam de ser conhecidos, através da comunicação social; e, por isso, vamos maldizendo a guerra e quem cria artifícios para que não acabe, apelando, ao mesmo tempo, para quem nos deverá defender. Deixarmos de nos surpreender perante o que de mal nos rodeia, não só constitui o não medir as consequências desse mal como mantermo-nos subjugados por ele.
Por exemplo, quando o sol (o protagonista de hoje) abriu o caminho ao dia, apareceu temendo o que, neste dia, poderá acontecer-lhe: ora ter de continuar a oferecer a sua energia, ora por vários meios, ser forçado a escurecer; ou até ser obrigado a observar o que, ultimamente, vem acontecendo na Terra.
No primeiro caso, acha que não tem muito a recear, pois crê que, nas atuais circunstâncias, a sua energia será inesgotável; no segundo, perante a previsível obstrução ao querer iluminar, aquecer e fazer andar a vida, ter de empregar a força para suplantar terríveis obstáculos. Finalmente, mesmo não obrigado, não deixará de ver o que se passa na Terra.
Os homens, a quem esta foi oferecida para nela morarem e solidariamente viverem, dela se têm servido, mas parece que não vivem satisfeitos. Muitos deles acham que o seu vizinho tem de se encolher para ganharem mais espaço para si próprios, como também não se coíbem de exigir-lhe parte ou a totalidade do que é seu. E porque muitas vezes não se entendem pelo diálogo, não encontram outra solução melhor senão a do recurso à força…
Durante milénios de desentendimentos não tão graves como os de agora, foram inventando e servindo-se de armas cada vez mais mortíferas – até às de hoje que, num abrir e fechar de olhos, podem destruir a própria Terra e fazer com que o sol desapareça por detrás de uma extensa, negra e terrivelmente aterradora nuvem provocada pelos próprios homens. Ele sabe muito bem que isso pode acontecer-lhe, pelo que, então, deixará de cumprir as suas obrigações, tanto mais que, daí por diante, não existirá Terra que possa acolher aqueles a quem, tão confiadamente, foi oferecida.
Porém, também sabe que, felizmente, ainda não se chegou a esse ponto, embora vários indícios apontem para que tal aconteça. E ao verificar os males provocados tanto pelos homens como pela própria Terra (que assim exprime todos os maus tratos a que se vê sujeita), como: terramotos, ciclones, vulcões, grandes e graves inundações, incêndios, a desertificação progressiva, a lenta destruição da biodiversidade, a poluição dos mares e dos rios, a destruição da fauna e dos seus habitats, enquanto cidades inteiras serão destruídas, não deixa de, lá do alto, pedir aos homens que, em vez de tantos conflitos, se unam, se ajudem e se respeitem mutuamente.
Toda a mortandade, miséria e destruição que, neste momento acontecem na Terra poderá levar ao caos, a menos que os promotores dessas fatalidades encarem a realidade que é a de considerarem que, como penso, talvez de nenhuma delas sairá um vencedor, e que, só pela coexistência pacífica a Humanidade poderá vir a ser feliz.
