A opinião de ...

Ecoando a Fratelli Tutti (II)

Neste artigo, e no próximo, desventraremos as sombras da noite dum mundo fechado, sobre as quais o papa Francisco faz incidir a luz do seu sonho, propondo gestos, atitudes e ações que geram fraternidade. São quatro as sombras que eu identifico no primeiro capítulo desta encíclica, como escolhos que impedem o avanço da fraternidade universal. Ei-las: uma certa cultura política, uma certa cultura da globalização, uma certa cultura económica e uma certa cultura digital. Hoje, deter-nos-emos nas duas primeiras.
A política que ensombra o tempo presente é aquela política doente devido: a erros, à corrupção, à ineficiência, a uma certa economia aglutinadora e a determinadas ideologias (176). Nos tempos que correm, no entender do pontífice, assiste-se ao advento de nacionalismos fáceis que se alimentam de uma sementeira do medo e da desconfiança. Aquele medo que, esclarece Francisco, nos priva do desejo e da capacidade de encontrar o outro (41). Este passa a ser depreciativamente «o outro». Por isso, o papa formula o seguinte desejo: passada a crise sanitária, oxalá já não existam «os outros», mas apenas um «nós» (34). No meu entender, como variante dos nacionalismos, o papa refere a limitação das ajudas aos países pobres, no sentido de os fazer bater no fundo para que se decidam adotar medidas de austeridade (37). Trata-se do «outro» visto com altivez! Fala, também, daquelas crises que fazem morrer à fome milhões de crianças, diante de um inaceitável silêncio internacional (29). Trata-se do «outro» visto à distância! Por isso, Francisco e o Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb, ainda que não ignorando os avanços positivos que se verificaram na ciência, na tecnologia, na medicina, na indústria e no bem-estar, dão-se conta que, juntamente com tais progressos, se verifica uma deterioração da ética e um enfraquecimento dos valores espirituais e do sentido de responsabilidade (29).
Ainda acerca da sombra de uma certa cultura política, o papa lamenta o recurso à estratégia da ridicularização como forma de desacreditar os opositores políticos (15), lembra aqueles que apelida de «exilados ocultos», ou seja, os idosos e os deficientes quando, com todos os documentos em ordem, os fazem sentir como estrangeiros na sua própria terra (97-98), e afirma que atenta contra a fraternidade quem olha para a sua gente com desprezo, estabelecendo na própria sociedade categorias de primeira e segunda classe (99). Alerta ainda para o conluio entre aqueles que usam e enganam a sociedade para sugá-la e aqueles que julgam manter a pureza na sua função crítica, mas ao mesmo tempo vivem desse sistema e seus recursos (75).
Pelo que respeita à sombra de uma certa cultura da globalização, o papa adverte que «a sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos» (12). E afirma existir um modelo de globalização que «procura eliminar todas as diferenças e as tradições numa busca superficial de unidade (100). Um fenómeno, entre outros, favorecido pelo avanço deste globalismo diz respeito às novas formas de colonização cultural, como aquela de alguns países economicamente bem-sucedidos que são apresentados como modelos culturais para os países pouco desenvolvidos, em vez de se procurar que cada um cresça desenvolvendo as suas capacidades de inovar a partir dos valores da sua própria cultura. Gera-se, deste modo, uma baixa autoestima nacional (51), sendo a destruição da autoestima uma maneira fácil de dominar o outro (52).

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3805