Turismo e construção civil serão dos setores mais afetados pela guerra no Irão mas há janelas de oportunidade para a região
O aumento do preço dos combustíveis provocado pela guerra no Irão poderá afetar sobretudo os setores do turismo e da construção no Nordeste Transmontano, para além das próprias famílias, mas há janelas de oportunidade que se podem abrir.
A conclusão é do economista transmontano Paulo Reis Mourão, investigador e docente na Universidade do Minho e na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.
Ao Mensageiro, Paulo Mourão antevê que os efeitos se sintam no imediato.
A economia transmontana, com as suas condições, sofrerá, a curto prazo, pelo aumento dos preços dos combustíveis, o que agrava sempre os custos de deslocação, penalizando setores como o turismo, mas também a generalidade de áreas como a construção civil ou o transporte de bens e serviços essenciais à população", frisou.
Por outro lado, o economista transmontano, responsável pelo Índice da Economia de Trás-os-Montes (IETI), acredita que dificilmente os produtores locais terão a ganhar com esta situação.
"Num cenário em que as linhas de abastecimento dos supermercados ficassem comprometidas, os consumidores locais virar-se-iam para fornecedores mais locais. Mas esse cenário, temos de reconhecer, é muito remoto", aponta.
Contudo, vislumbra que "o turismo pode ter a tal janela de oportunidade, pois o turista internacional pode optar por passar mais tempo em locais seguros e afastados das áreas em conflito". "Também os investimentos das empresas de base tecnológica, facilmente deslocáveis e suportadas pelo trabalho remoto, poderão olhar com mais interesse para as áreas de todo o país que ofereçam suporte adequado – como boa qualidade de fibra ótica e de trabalho complementar", referiu ao Mensageiro.
Apoios mais claros nos combustíveis
Numa altura em que abundam os alertas sobre uma nova crise energética, Paulo Reis Mourão defende que "os apoios deviam ser mais claros junto dos preços dos combustíveis", apesar de apontar um eventual conflito de interesses do Governo.
"Obviamente, o próprio Estado ganha bem com os impostos associados aos combustíveis, pelo que as medidas adotadas podem não ser as mais generosas devido a esse conflito de interesses, também escudadas pela retórica anti-inflacionista. Também é certo que, um mês depois do conflito agravado no Médio Oriente, os dados disponíveis não evidenciam menores fluxos de trânsito nas nossas estradas, o que mostra que, dada a incapacidade da população de poupar nos transportes, alguém fica a ganhar com o agravamento dos preços. A prazo, em virtude de uma dilatação temporal da guerra, outras medidas devem ser ensaiadas considerando os setores mais afetados e as comunidades mais expostas no país", analisa Paulo Reis Mourão.
Juros na habitação sob pressão
Outro setor sob forte pressão será o da habitação, desde logo com o previsível aumento dos juros nos empréstimos bancários.
"Infelizmente, fenómenos como as guerras ou as pandemias são sempre boas desculpas para agentes pouco escrupulosos ficarem a ganhar com técnicas de especulação, nomeadamente nos produtos mais expostos, mas também nos produtos derivados. Qualquer conflito compromete os canais de fornecimento de materiais importados, elevando os custos da construção civil, repercutindo sempre no fim junto do consumidor final. Ainda assim, espera-se que o Estado esteja atento a práticas pouco éticas nos vários mercados, onde se inclui o mercado da habitação, já por si com diversas fragilidades no nosso país", conclui o economista transmontano.
