Entrevista a Cristina e Jacques Bigand

"Vamos investir mais de 30 milhões de euros aqui no distrito de Bragança"

Publicado por António G. Rodrigues em Seg, 08/03/2026 - 17:52

Nesta grande entrevista ao Mensageiro de Bragança, Jacques e Cristina Bigand explicam as razões do regresso, apresentam os investimentos que estão a desenvolver e deixam uma visão crítica sobre a evolução económica, a arquitetura, o espaço público e o futuro de Bragança.

Mensageiro de Bragança: Quem são o Jacques e a Cristina Bigand?
Jacques Bigand:
Somos um casal franco-português, ou luso-francês. Durante mais de 20 anos, desenvolvemos em França, na Bélgica, no Luxemburgo e no Canadá uma atividade na área da informática e das soluções técnicas para o setor imobiliário. A empresa cresceu e alcançou algum sucesso, acabando por ser vendida. Integrámos o grupo que a adquiriu e, alguns anos mais tarde, esse grupo foi também vendido. Nessa altura, orientámo-nos para outras atividades e começámos a perguntar-nos o que faríamos a seguir.
Decidimos regressar ao país de origem de Cristina, mais concretamente a Bragança, no Norte de Portugal. Há mais de 20 anos que vínhamos regularmente a Portugal e a esta região, mas apenas de férias ou para passar algum tempo com a família. Desta vez, decidimos regressar para investir e trabalhar em Bragança.

MB.: Esse regresso foi motivado mais pelo prazer do que pelos negócios?
Cristina Bigand:
Sim, sobretudo pelo prazer. Não propriamente com a ideia de fazer negócios.
Jacques Bigand: Não regressámos apenas para fazer negócios, mas também não queríamos ficar inativos, como se estivéssemos permanentemente de férias. Perguntámo-nos o que poderíamos fazer e começámos a interessar-nos por áreas diferentes da tecnologia, da informática e do imobiliário em que tínhamos trabalhado.
Quisemos regressar a valores essenciais: cultivar a terra e construir para habitar. Existem outros valores fundamentais, como cuidar, ensinar ou proporcionar entretenimento, mas concentrámo-nos nos dois primeiros. Por isso, temos projetos agrícolas ligados à oliveira, ao vinho e, sobretudo, à produção de azeite e de vinho. No imobiliário, desenvolvemos projetos de pequena, média e grande dimensão, desde a recuperação de edifícios históricos e de construções atualmente sem grande interesse até loteamentos e intervenções mais ambiciosas em edifícios emblemáticos, como é o caso do Chave D’Ouro ou do Solar dos Calaínhos.
É um projeto que conduzimos em conjunto, procurando aplicar critérios de qualidade a tudo o que fazemos, independentemente da sua dimensão.

MB.: Sentem que estão também a devolver algo à terra de origem da família?
Jacques Bigand:
Tivemos a sorte e a oportunidade de alcançar algum sucesso ao longo da vida e parece-nos natural devolver uma parte daquilo que recebemos. Queremos fazê-lo de forma concreta. Por isso, decidimos regressar às origens, a uma terra onde, há duas ou três gerações, muitas pessoas tiveram vidas extremamente difíceis, e dar o nosso contributo à região.
Esse é um ponto muito importante para nós. 
O segundo é que esta não é apenas a região da família de Cristina: é também uma região com futuro, com grande potencial. Quando aqui vim pela primeira vez, há mais de 20 anos, fiquei impressionado com a sua beleza. Percebi também que Bragança tinha um enorme potencial devido à localização no Nordeste de Portugal, à disponibilidade de terrenos para novos projetos, aos acessos rodoviários e ao aeródromo. 
Acredito que Bragança pode tornar-se uma cidade importante no espaço ibérico, particularmente no Nordeste português, e também uma cidade relevante no contexto da União Europeia.

MB.: Que projetos estão atualmente a desenvolver em Bragança?
Cristina Bigand:
Estamos a avançar com a recuperação do edifício do antigo Chave D’Ouro, no centro da cidade, para o transformar num hotel de cinco estrelas.
Temos, igualmente, um projeto no Solar dos Pimentéis, em Castelo Branco (Mogadouro), que passará também pela reabilitação histórica do edifício e pela sua transformação numa unidade hoteleira.
Comprámos ainda uma quinta com o objetivo de criar um alojamento local e desenvolver atividades de enoturismo.

MB.: O Solar dos Calaínhos poderá funcionar como extensão do hotel do Chave D’Ouro?
Cristina Bigand:
Essa é uma possibilidade que já equacionámos. O hotel do Chave D’Ouro terá apenas dez quartos, sendo, por isso, uma unidade pequena. Gostaríamos de preservar o edifício do Solar dos Calaínhos tal como existe e aproveitar os seus espaços para salas de receção e restauração, mantendo também o bar e o jardim. Na parte posterior poderia ser construída uma extensão da unidade hoteleira. Contudo, esse projeto ainda não foi iniciado, ainda aguardamos autorizações.

MB.: A burocracia tem dificultado o avanço dos investimentos?
Cristinea Bigand:
Sim, até agora tem sido um problema, embora comecemos a notar algumas mudanças. No início também existiu alguma desconfiança. Atualmente, trabalhamos melhor com a Câmara Municipal. Penso que foi necessário construir uma relação de confiança e que percebessem quais eram, realmente, as nossas intenções.

MB.: A agricultura é outra das áreas de investimento?
Cristina Bigand:
Sim. Estabelecemos uma parceria com um casal Cristiano Pires e Rute Gonçalves que inicio a exploração da vinha há mais de 10 anos em zona de Mogadouro, em Castelo Branco, com vários terrenos de vinha, e adquirimos outra propriedade em Lodões, perto de Vila Flor, já na região vitivinícola do Douro. Pretendemos construir uma adega em Mogadouro e criar condições para o envelhecimento do vinho.
Temos também um projeto para plantar vinha destinada exclusivamente à produção de espumante em Carocedo (aldeia da minha mãe), a cerca de vinte minutos de Bragança. Adquirimos aí terrenos antigos que serão reconvertidos.
Queremos ainda recuperar e plantar olivais, produzir azeite e comercializá-lo internacionalmente. 
Os nossos investimentos concentram-se essencialmente no imobiliário, na hotelaria, no turismo e na agricultura.

MB.: O olival surge como uma das paixões de Jacques?
Cristina Bigand:
Sim. O olival é uma paixão antiga. Quando tinha cerca de 20 anos, o Jacques já dizia à sua mãe, apesar de não vir de uma família de agricultores, que um dia queria ter oliveiras. Também sempre gostou da restauração e da cozinha italiana. A compra do restaurante Gôndola, em Bragança, surgiu igualmente dessa vontade. Foi o primeiro restaurante onde ele almoçou em Bragança e de que gostou muito. Eu conhecia o anterior proprietário desde pequena, porque era amigo dos meus pais, e acabou por surgir a oportunidade.

MB.: Os vossos investimentos ficarão limitados a Bragança?
Cristina Bigand:
Ficarão em Trás-os-Montes e em zonas próximas, num raio inferior a 100 quilómetros de Bragança. Poderia existir maior rentabilidade económica no Algarve, em Lisboa ou no Porto, mas a nossa intenção é investir na minha região.

MB.: Estão também a desenvolver projetos de habitação?
Cristina Bigand:
Sim, temos vários projetos na cidade, incluindo na zona histórica, onde pretendemos criar apartamentos. Existe ainda um projeto de loteamento na zona das Quintas da Seara, que prevê a construção de cerca de 40 casas.

MB.: O que distinguirá esse loteamento?
Cristina Bigand:
Queremos construir habitações responsáveis do ponto de vista ambiental, com qualidade e respeito pela arquitetura local. As cores são muito importantes. Atualmente, constroem-se casas sem respeitar suficientemente a arquitetura da região e nem sempre são utilizados os materiais mais adequados.
Queremos fazer algo diferente, mas simultaneamente muito respeitador da identidade local e da natureza. O terreno possui muitos olivais e pretendemos preservá-los.

MB.: Quando esperam ter todos estes projetos concluídos?
Jacques Bigand:
Temos trabalho para cerca de dez anos.
Cristina Bigand: Talvez 15.
Jacques Bigand: Se cada licença de construção demorar dois anos e meio, poderemos precisar de 25 anos.

 

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