A opinião de ...

Um conto de Natal – Natal com calor

Caros leitores, nesta quadra, igualmente em todos os anos e meses e semanas e dias e horas, em todas as latitudes e longitudes, desejo que o Homem possa construir um novo mundo, onde não caiba a guerra, onde a fome e a má nutrição não matem milhões, onde uns poucos não desfrutem egoisticamente dos bens que a Natureza lhe propiciou e, onde, enfim, os direitos humanos sejam respeitados na sua plenitude.
Nesta quadra, ocorre-me trazer um conto que compus em 1997, aquando da minha presença na Guiné-Bissau em atividade de cooperação no setor da saúde. Maneiras de encarar o Outro. O exemplo de dignidade humana.

Natal com calor
A aldeia de Nhane fica a cerca de cinquenta quilómetros de Bissau. Para lá se dirige Alberto e sua mulher, acompanhando António Kundé, funcionário superior do Ministério dos Assuntos Sociais, em visita a sua mãe.
É véspera de Consoada. Para os católicos. Para os animistas, também?
Pelo caminho, já nas cercanias da tabanca (aldeia), repararam nos pequenos santuários animistas, erigidos a deuses muitos – e, junto, flores, ou folhas, ou conchas ou amuletos, sinal de recente visita de crente, ansiando benesse divina.
Debaixo do alpendre, sentaram-se nas tropeças (banquinhos de pau bissilon) e conversaram todos sobre a vida da tabanca: da lavoura, dos roncos (festas), das misérias e sofrimentos de quem trabalha muito e padece mais, e da cidade ali tão perto e tão longe, onde alguns poucos têm tudo ou quase tudo: camisa e calça alisada, pãozinho quente pela manhã, bebendo bom vinho, tanta coisa boa...
O tempo foge devagarinho.
O sol está a desaparecer por detrás das palmeiras e dos altos poilões (árvores esbeltas) (as noites, aqui em África, caem muito depressa!); as galinhas deixaram de rapar a terra e procuram um galho para noitarem; os porcos acomodaram-se; as mães começaram a arrastar os filhos e os netos para dentro de casa; os homens fumam a derradeira cachimbada.
O silêncio faz-se mais. Os visitantes preparam-se para partir.
Um velho, porventura o mais velho ancião da aldeia, pediu ao familiar António um momento de espera antes da partida. Entrou na sua casa e depressa regressou.
Nas suas mãos calosas, mas com pele sedosa e brilhante, trazia um pequeno ovo que depositou, candidamente, nas mãos brancas da mulher branca.
Santa véspera de Natal, sem ser Natal, em Nhane.

Edição
4070

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