A opinião de ...

COMUNIDADE

Desde a época de domínio romano, em que os vales foram progressivamente ocupados pelas populações que viviam nos castros e, mais tarde, com a fundação de paróquias, em lugares cujo termo se media pelo tempo que se demorava a lá chegar com os animais ou sem eles, que as nossas aldeias construíram uma paisagem única e foram, desde sempre, unidades de gestão do território muito eficientes. No entanto, a falta de economia associada a este território, na actualidade, significou o seu esvaziamento e, consequentemente, a escassez de gente implicada na sua gestão.
Para agravar o problema, o cidadão comum não tem, nem haverá razões objectivas para ter, qualquer vínculo à terra. Isso significa que o (pouco) valor agrícola que a terra teve, não significa quase nada nos dias de hoje – serve para quase tudo, menos para a agricultura. Há cem ou duzentos anos, não era necessário haver Planos Directores Municipais nem classificação de solos para que o cidadão transmontano soubesse onde podia e devia construir a sua casa ou as dependências agrícolas necessárias à sua actividade. E, sobretudo, para que soubesse onde não podia nem devia construir.
Herdeiros deste pensamento ‘local’ mas sem saber bem porquê, muitos transmontanos sentem-se no direito de construir a sua habitação onde bem lhes apetece, sem qualquer tipo de noção ou preocupação com o bem comum – a arquitectura e a própria morfologia dos assentamentos rurais são assuntos que têm impacto na vida de todos nós e devem interessar à comunidade – e, incorporando um espírito de condomínio fechado, pináculo da negação da rua enquanto espaço social e de partilha, cresce palas aldeias do distrito um espírito ‘’novo rural’’, da existência isolada e sem qualquer ligação social, arquitectónica e humana às formas de agregação que fizeram a história deste território.
A modernidade das relações entre a obra e a vida – uma das constantes referidas pelo Mestre Fernando Távora – manifestou-se neste território através do vínculo milenar à terra, como expressão de modernidade. A arquitectura actual dos assentamentos rurais e urbanos do distrito, não traduz, segundo uma relação perfeita, as suas condições envolventes. O que deveria importar é a atitude que preside à concepção da arquitectura e não a sua formalização, mais ou menos feliz, mais ou menos de acordo com imagens que nos chegam de todo o lado, menos de cá.
A organização tradicional do espaço rural, resultou de um esforço colectivo, de um conjunto de cedências e compromissos que a comunidade percebeu necessários e vantajosos. Seja na implantação e escolha dos locais dos assentamentos, seja na forma de agregação do casario, a nossa arquitectura é o resultado de uma síntese colectiva. A partir de hoje, procuraremos apresentar nestas páginas exemplos de arquitectura local, demonstrativos da síntese de uma arquitectura transmontana que gosta dela própria.

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