Universidade de Bragança: Para lá do Anúncio, exige-se mais!
Há sensivelmente um ano, quem aspirava aos destinos do Município de Bragança professava, com convicção inabalável, que um mandato autárquico digno desse nome tem de deixar “obra feita”, sob pena de não o ser verdadeiramente.
Hoje, embora a criação de uma universidade não decorra diretamente da ação ou competência municipal, a associação da governação local ao desígnio nacional de ter uma universidade em Bragança, procura legitimar essa mesma aspiração de “obra feita”, e, portanto, silogismo primário (mas falacioso), de mandato autárquico sucedido!
Sabemos, porém, que a política hodierna é feita, amiúde, na base do anúncio (frustrado), tantas vezes desprovido do incómodo pormenor do orçamento, do calendário e, portanto, da concretização real, que se esvai, quantas vezes, em desencanto!
Em Bragança, quem atualmente figura como guardião da vontade coletiva local faz uso e abuso desta estratégia – a do anúncio ou da colagem ao mesmo -, o que não deixa de ser a sintomatologia viva do próprio mal nacional de que o País padece.
Pelo que, aos brigantinos só pode restar a postura pragmática de São Tomé: ver para crer!
Nesta quarta-feira, dia 9, Bragança acolhe a reunião descentralizada do Conselho Ministros.
Escrevo este texto na expetativa de que ali será efetivamente deliberado e concretizado, mormente do ponto de vista legislativo, a futura Universidade de Bragança e do Norte Interior.
Independentemente do desfecho dessa reunião, assinale-se, isso sim, por devido e reconhecido, o labor de excelência do Instituto Politécnico de Bragança (IPB) ao longo de décadas, no ensino, na investigação aplicada e na internacionalização, somando um marco indiscutível.
O novo estatuto universitário alargará a margem para a captação de financiamento internacional e reforçará o prestígio científico da região.
Mas, mais que a proclamação oficial, o dever de responsabilidade pública exige ir para além do aplauso imediato.
Para alavancar a Universidade, é imperativo ir além do anúncio e exigir recursos financeiros e humanos palpáveis e concretos, medidas infraestruturais de fundo, que obviem os estrangulamentos que a região enfrenta de há muito.
Em primeiro lugar, com a crise da Habitação, o sucesso da Universidade exige maior e mais acessível oferta de habitação, para superar a forte pressão do mercado imobiliário local.
Em segundo lugar, exige-se o reforço substancial de verbas no Orçamento do Estado e do Norte 2030, garantindo a contratação de quadros docentes e o investimento no edificado e em laboratórios.
Em terceiro lugar, e atratividade de uma universidade no Interior não subsiste no isolamento, por isso as acessibilidades e conectividade são essenciais e faltam em demasia.
Onde estão os compromissos concretos como a mobilidade rodoviária, a expansão do aeródromo e a inserção de Bragança na rede ferroviária transfronteiriça ? Ou espera-se que a comunidade académica viaje na expectativa da propaganda?
Em quarto e último lugar, o conhecimento gerado não pode ficar fechado em gabinetes; tem de impactar na economia local, na inovação produtiva para a Zona Industrial, no Brigantia EcoPark, fixando emprego qualificado no concelho.
Concluindo, regista-se o anúncio da Universidade com a devida expetativa, mas não se passam cheques em branco. É preciso verdade política, coisa rara nos dias d´hoje.
Assim, por mais virtuosa que seja a criação da Universidade, se esta não for acompanhada por uma alavancagem real da economia local, pela resolução do drama da habitação e por respostas definitivas à nossa mobilidade, corremos o sério risco de ficar a meio caminho.
Que a aspiração municipal de “obra feita” e a associação da governação local a este desígnio nacional saibam tirar bom proveito da ocasião, e, nessa senda, que a Srª Presidente da Câmara tenha a mestria política e a firmeza institucional de aproveitar a presença do Conselho de Ministros, e a consagração universitária da cidade, para tirar Bragança, definitivamente, do marasmo em que se encontra!
