Escritores de Pedestal – Almeida Garrett
Se Gil Vicente, escritor do século XVI, é tido como o pai do teatro português, no século XIX, Almeida Garrett foi o seu maior impulsionador, tendo em conta os seus projetos da Inspeção-Geral dos Teatros e Espetáculos Nacionais, da construção do Teatro Nacional D. Maria II e da criação do Conservatório-Geral de Arte Dramática.
Contam-se algumas peças dramáticas deste multifacetado escritor que, por variadas circunstâncias da vida, se viu forçado a exilar-se.
Este exílio tem muito a ver com o seu espírito revolucionário de cariz liberal e humanista, já desde o seu percurso universitário, e que não mais abandonou.
Tendo nascido no Porto, em fevereiro de 1799, ainda criança, por força das invasões francesas, foi levado pela família para os Açores, onde foi ensinado por um seu tio clérigo.
Avesso ao absolutismo, após a “Vilafrancada”, teve de exilar-se em Inglaterra, onde, por convívio com William Shakespeare e Walter Scott, se iniciou no romantismo. Mais tarde, tendo partido para França, aí escreveu os poemas “Camões “e “Dona Branca” – livros considerados os iniciadores do romantismo em Portugal.
Referi acima a qualidade de Almeida Garrett como escritor multifacetado. Na verdade, nos campos literários em que se distinguiu, salientam-se as seguintes obras: dramaturgo – “Um Auto de Gil Vicente” e “Frei Luís de Sousa”; prosador – “Viagens na Minha Terra”; poeta – “Folhas Caídas”.
Debruçando-me apenas sobre a sua qualidade de dramaturgo, vou tomar como exemplo a sua obra “Frei Luís de Sousa”.
Trata-se, naturalmente, de uma peça teatral, escrita em março e abril de 1843, representada pela primeira vez em 4 de julho do mesmo ano e publicada em abril de 1844 que, ao longo de três atos, cada um respetivamente com doze, quinze e doze cenas, me leva a refletir, (tal como outros afirmaram), se de facto se trata de um drama, se de uma tragédia.
“O conteúdo de Frei Luís de Sousa tem todas as caraterísticas de uma tragédia. No entanto, [o próprio autor] chama-lhe drama por não obedecer à estrutura formal de uma tragédia”.
Dona Madalena de Vilhena, passados sete anos sem que o primeiro marido, D. João de Portugal, tenha dado notícias do seu paradeiro, e após muitas investigações, chegou a crer que tenha morrido, como tantos outros, na Batalha de Alcácer-Quibir. Assim, casou em segundas núpcias, com Manuel de Sousa Coutinho de cujo casamento tiveram uma filha – Dona Maria de Noronha.
Contudo, Dona Madalena vivia em constante pesadelo, pela dúvida que a levava a pensar se de facto o primeiro marido estaria ou não entre os mortos naquela Batalha.
Sob o domínio espanhol, e devido a uma peste que grassava em Lisboa, os governantes resolveram sair da cidade para Almada, onde haviam de ocupar o palácio de D. Manuel de Sousa Coutinho. Este, para que tal não acontecesse, num ato de patriotismo, resolveu incendiá-lo; e contra a vontade de D. Madalena, irem morar na casa que fora de D. João de Portugal, onde aquela passou a viver sob enorme constrangimento, pois constantemente lhe fazia lembrar o primeiro marido.
Um dia apareceu nessa casa um romeiro que disse ter vindo da Terra Santa e queria falar com Dona Madalena para lhe transmitir um recado de alguém que a amara muito. Na dúvida, o seu cunhado Frei Jorge, diante de vários retratos dependurados na parede, pediu-lhe para indicar a pessoa que ali o enviara. Sem hesitar, indicou imediatamente o retrato de D. João de Portugal, dando a saber que o romeiro era o próprio D. João de Portugal.
Com a certeza de que este continuava vivo, Manuel de Sousa Coutinho tem logo a perceção de que Maria, (muito doente e de cama), era filha ilegítima e receia que, por este motivo, ela não consiga resistir.
Assim, decide, com a esposa, professarem num Convento: ele, no Convento de S. Domingos de Benfica; ela no Convento do Sacramento, após o que Maria, sabendo-se já filha ilegítima, “entra em cena […] desvairada, como um fantasma, e morre numa cena melodramática”.
É de assinalar, neste drama, que prevaleceu, em Portugal durante muito tempo, a ideia do sebastianismo que levou a acreditar na vinda de D. Sebastião perdido na Batalha de Alcácer-Quibir; e que, por este motivo, não tendo deixado descendentes, Portugal viu perder a sua independência a favor da Espanha.
(Bibliografia: Barreiros, A. J. “História da Literatura Portuguesa”, e Fiúza, M., “Frei Luís de Sousa”)
