Viver Bem
Recentemente o cineasta português João Canijo brindou-nos com um díptico explorando, em duas óticas, a complexidade de relacionamentos difíceis e penosos de duas realidades coexistentes num pequeno hotel, a dos proprietários e a dos utentes, que, adequadamente, titulou de “Mal Viver” e “Viver Mal”, respetivamente. É normal que a arte se debruce, ocupe e explore as situações mais críticas, impiedosas e, às vezes, cruéis. Sem qualquer reparo ou desmerecimento da qualidade, no caso em apreço, inquestionável, é preferível, porém, relatar, quando existente, as situações opostas ou as ações que as fomentam e promovem.
É o caso de uma Unidade de Investigação do IPB que tem por lema “Live Well” cuja tradução aponta o seu maior objetivo: Viver Bem!
Liderado pelo investigador Tiago Barbosa, este projeto, recorrendo aos recursos disponíveis na região, com especial relevo para a estância termal de Chaves, usando as melhores e mais evoluídas ferramentas da atualidade, com realce para a Inteligência Artificial e Machine Learning, em colaboração com várias instituições locais e nacionais (ULS Nordeste e Fundação Champalimaud), propõe-se promover a pesquisa interdisciplinar sobre a vida ativa e bem-estar, focando-se em compreender, para melhorar, a qualidade de vida em vários grupos demográficos, promovendo mudanças positivas na vida dos cidadãos e comunidades, com natural ênfase na nossa região.
Viver bem é algo que, obviamente, interessa a todos. Porém, os tempos que correm faz-nos olhar para este tema de forma diferente. Porque vivemos um tempo em que os desenvolvimentos nos tratamentos médicos e a diminuição na taxa de natalidade veio envelhecer a população, com grande incidência no nosso país e com maior gravidade nas regiões do interior, como o nosso nordeste, tornando-a mais frágil e necessitada de cuidados de saúde. Algumas das doenças não dispensam o tratamento nos Hospitais e Centros de Saúde mas, com os atuais desenvolvimentos da ciência médica e o uso de ferramentas cada vez mais eficientes e poderosas, muitas delas podem ser acompanhadas e cuidadas nos domicílios.
Segundo o último Relatório da OCDE Portugal não só está entre os países mais envelhecidos como ainda é um dos três que envelhecem mais rapidamente. Para complicar mais, o diferencial entre a esperança de vida e a esperança de vida saudável tendo vindo a crescer, tem valores significativos: 19 anos para os homens e 27 para as mulheres. É, pois, necessário acautelar os enormes desafios sociais e económicos que advêm da situação demográfica que o País enfrenta e permitir que todos, sem exceção, possam viver mais anos com maior autonomia e qualidade de vida. É esta missão que o projeto Live Well abraçou e está a trabalhar olhando com especial interesse as doenças que mais podem beneficiar dos avanços tecnológicos, quase independentemente das infraestruturas físicas que, em todo o país e, por maioria de razão, na nossa terra, escasseiam. Estão neste leque as doenças neurodegenerativas como o Alzheimer e o Parkinson e que são, atualmente, de difícil tratamento. Só o Alzheimer e os distúrbios relacionados afetam mais de 7 milhões de europeus, com um custo de tratamento superior a 130 mil milhões de euros, prevendo-se que o número duplique a cada 20 anos.
Daí a premência e importância de projetos como este e, igualmente, a relevância da associação com a Fundação Champalimaud.
