A opinião de ...

A Câmara e o Rumo Perdido: Entre a Aura Nacional e o Desnorte Local

A governação de um concelho, como o de Bragança, não pode ser um projeto a solo, despernado ou desconexo, ou de uma cara só! E, definitivamente, do que não precisa é da errância e da incerteza no estilo e gestão da res publica .
Exige, antes, estabilidade, uma equipa coesa e, acima de tudo, o respeito pelos princípios e valores que levaram à vitória nas urnas.
No entanto, quem observa o dia-a-dia da Câmara de Bragança sente hoje uma estranha desconexão entre o que se prometeu e o que se pratica.
Bragança parece navegar à vista, num cenário de decisões erráticas que levantam dúvidas sobre o rumo da liderança municipal.
Vivemos um paradoxo difícil de explicar.
É louvável ver a liderança municipal assumir o papel de mandatária distrital de figuras de peso e integridade, como António José Seguro, um exemplo de sobriedade e ética no Estado. O Farol de Lisboa faz brilhar!
No entanto, o contraste com a realidade local não nos deixa tranquilos. Como se explica que se projete o rigor e a estabilidade na relação com Lisboa, enquanto em Bragança se permite que o projeto politico original seja desvirtuado e colonizado?
O Partido Socialista, que foi a bandeira, o motor e a base da conquista eleitoral das autárquicas, a 12 de Outubro de 2025, parece estar a ser sistematicamente afastado, desde logo, nas escolhas para lugares-chave da administração politica local. Um desencanto, que cava cada vez mais fundo na militância e nos simpatizantes do PS.
A saída do dirigente da Concelhia PS Bragança, e o evidente e denunciado distanciamento em relação a membros chave da lista eleita pelo PS, como a saída do número dois, são sinais de que a liderança camarária optou por um caminho que não olha às bases e à fidelidade pessoal e politica, criando tensões e divisões internas desnecessárias e incompreendidas. Quem perde é a cidade e o concelho!
Um dos sintomas mais claros deste desnorte é a gestão do círculo mais próximo da presidência.
Quando assistimos, ainda recentemente, a uma sucessão de mudanças em cargos fulcrais de confiança politica, como, por exemplo, com três nomeações em tempo recorde para o cargo de Chefe de Gabinete, por pessoas cuja identidade com o projeto politico ganhador é mais que duvidosa, ou mudanças de enquadramento interno no seio do executivo que levantam suspeições sobre a consistência e a confiabilidade das relações de poder, torna-se evidente que, lá para os lados do Forte S. João de Deus, há uma crise de confiança e de liderança, no estilo e na substância!
Mais do que uma falha administrativa, está em causa a dignidade institucional. Se a liderança não confere estabilidade aos seus colaboradores diretos e não confia nos seus parceiros de eleição, cria-se um vazio de autoridade, de crédito e de rumo que a todos atinge!
Bragança não pode ser gerida através de soluções de recurso, experiências e “ensaios” constantes.
O cidadão comum espera rigor e competência, não uma porta giratória de nomes que parecem escolhidos ao sabor de conveniências de momento ou de influências externas que ninguém elegeu.
Este cenário de errância política tem consequências reais.
Uma liderança que não agrega a sua equipa e que ignora as estruturas que a sustentam, acaba por ficar refém da incerteza, do desnorte, do casuísmo, e, pior, da birra e amuo já sobejamente conhecidos!
O munícipe, que espera soluções e não ‘ensaios’, sente hoje esta falta de norte e da bússola.
É urgente que a gestão municipal perceba que uma autarquia não é um feudo de vontades mutáveis, mas sim um compromisso de honra com quem nela confiou.
Entre o prestígio e estabilidade que se deseja e projeta desde Lisboa e a agitação que se vive na Praça da Sé, Bragança exige coerência, fiabilidade e compostura, “tout court”.
Antes que o dano reputacional seja irreversível, convém recordar: uma liderança inconstante e que não sabe confiar, nunca saberá guiar.

Edição
4072

Assinaturas MDB