A opinião de ...

A palavra, entre o ruído e a verdade

Vivemos num tempo estranho pois nunca se escreveu tanto e, contudo, raramente a palavra, como hoje, esteve tão fragilizada.
A advertência recente do Papa Leão sobre o “enfraquecimento da palavra” num discurso ao corpo diplomático acreditado junto da Santa Sé, toca precisamente neste ponto sensível da cultura hodierna.
Em nome da tão invocada liberdade de expressão, acrescentava o Santo Padre, está se a correr o risco, por parte de quem fala e escreve, de esvaziar a própria palavra daquilo que a deve fundamentar e sustentar que é a verdade, a responsabilidade e a honestidade.
Abordou também o que Santo Agostinho, já no seu tempo e a propósito referiu como a inopia loquendi, ou seja, a reflexão de que falar e escrever exigem humildade e atenção ao real, igualmente ao transcendente e divino, reconhecendo os limites da linguagem na qual, as palavras, como mediações frágeis do pensamento e como aproximações à realidade, devem ser usadas com mais cuidado, não com menos.
Hoje, também por aqui, no nosso tempo e na nossa geografia, será importante que estas ideias nos façam ter mais consciência e nos façam afastar do relativismo e aproximarmo-nos da responsabilidade do uso da palavra, fazendo-nos perceber que mais que um problema linguístico é antes de mais um problema humano e ético.
Um problema e já agora um desafio, nesta cultura da velocidade em que vivemos atualmente, das redes sociais, da comunicação permanente e até da imprensa, para que a palavra seja menos instrumentalizada para provocar impacto, gerar visibilidade, conquistar seguidores ou impor narrativas e fique mais vinculada, lá está, com o que atrás se referia: a verdade, a responsabilidade e a honestidade.
Trata-se de arrepiar caminho a uma lógica do sucesso imediato e da exposição permanente que o filósofo Gilles Lipovetsky dizia ser uma das marcas da “hipermodernidade”, em que, a seu ver, se assiste ao comunicar sem densidade e correspondência com a verdade objetiva e vivida, na fidelidade ao real e com a preocupação pelo bem que constrói.
A palavra sem critério e sem verdade transforma-se em ruído, alertava Umberto Eco, já há mais de uma década, pois quando tudo pode ser dito sem consequência, a palavra perde peso e credibilidade.
Daí a urgência de reafirmar a ética da palavra, pois falar e escrever não são atos neutros e criam vínculos, ferem ou curam, esclarecem ou confundem.
Da infância recordo uma frase que a minha professora me ensinou e que tendo a não esquecer “palavras fora da boca são pedras fora da mão, pensa primeiro palavras que saiam do teu coração”. Assim, de simples, para ensinar que uma palavra usada sem verdade pode tornar-se arma e uma palavra ancorada na bondade e honestidade pode tornar-se amizade e serviço.
Acredito que educar para o valor da palavra é, hoje, uma tarefa decisiva, tanto na escola, na família, na Igreja e nos meios de comunicação.
Educar não para coartar a liberdade de expressão, mas de a enraizar na verdade, escolhendo palavras, menos eficazes no soundbyte e para o aplauso no criticismo, mais verdadeiras e mais fiéis à dignidade humana.
Num mundo saturado de discursos, oriás e escritos, talvez outro exemplo de ato de coragem seja este.

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