Um Ano depois: O mito da “Super-Mulher” a gerir o Concelho ou o Poder?
Cumpre-se um ano sobre o encerramento de uma campanha eleitoral-autárquicas 2025/29- e da subsequente vitória eleitoral do PS, que marcou o futuro político de Bragança!
A 10 de Outubro- dia do meu aniversário- no comício de encerramento de campanha do PS, em Rebordãos, aquele cumprimento da cabeça de lista, efetuado no palanque, a cada um dos elementos da lista da Câmara, mas negado, declarada e ostensivamente, ao n.º 2, à vista de todos, não foi um mero detalhe anedótico, nem uma questão de melindre pessoal.
Até porque, repetível aos dias d´hoje!
Antes, foi mais um, de muitos, sintomas de um padrão de comportamento e de uma visão de poder: a dificuldade em lidar com o trabalho em equipa e com quem não se remeta ao papel de mero figurante ou simples capacho.
A que sempre me recusei!
Visão de Poder que, hoje, se cristaliza em dois mitos instalados no folclore da política local: O culto da liderança sobre-humana e o síndrome do centralismo do Poder.
O primeiro mito é quase romântico; todos conhecemos a figura: a luz do gabinete da Presidência que fica acesa até à uma da manhã, os despachos assinados às dez da noite e aquela aura de “super-mulher” e do sacrifício sobre-humano.
No inevitável contra-ponto, o desdém, a subalternização, e a infantilização dos que adornam a Presidência!
Porém, a mais recente ciência da administração pública - como Peter Drucker ou Cal Newport (Deep Work) - desmonta há muito esta miragem: trabalhar 14 ou mais horas por dia não é sinal de produtividade e de resultados, é, antes, sinal de incapacidade de organizar o próprio tempo, gerir equipas e conciliar a vida profissional com a dimensão pessoal.
É o cerrar fileiras contra a cultura do workaholismo (vício no trabalho) censurando o “espetáculo da atividade”, onde as pessoas trabalham horas a fio apenas para parecerem ocupadas destruindo a sua capacidade de foco e gerando “burnout”.
Portanto, quem não consegue organizar o seu trabalho no tempo adequado, razoável, e que lhe está destinado, não é capaz!
E é aqui que o primeiro mito se cruza perigosamente com o segundo: a resistência em delegar e o exercício de uma liderança concentracionista e paternalista.
O exemplo mais recente ocorreu na última Reunião de Câmara.
Sob o pretexto da “celeridade e eficácia” foi aprovada uma proposta de delegação em bloco de dezenas de competências da Câmara Municipal na Presidente, com enfoque na área do Urbanismo.
Ora, em vez de desconcentrar competências nos vereadores e nos dirigentes e técnicos, optou-se por criar um afunilamento decisório no gabinete da Presidência, onde tudo fica à espera de uma assinatura, retirando intervenção ao órgão colegial, a Câmara!
Porque, na óptica gestionária em exercício, isso equivale a Poder. E é sobre isso que a Presidência se preocupa: Gerir Poder, puro e duro!
Importa mostrar quem manda.
E, sob a exibição do Poder, ganhar o silêncio e a auto-censura de todos, ganhar as mercês e as conveniências politicas!
Com um único fito: a sobrevivência e a perpetuação do próprio Poder.
O resultado está à vista: por exemplo, na ilusão de boa gestão dada pela brutal distância entre o festival de anúncios de obra e a escassez da mesma no terreno.
Prometem-se milhões para a fotografia, mas quando se procura obra encontra-se papelada encravada na secretária e promessas que ameaçam a sustentabilidade financeira e as contas do Município, na expetativa de fundos alheios, matéria grave e com custos para o futuro de Bragança, o que se dissecará a seu devido tempo!
Mas, um ano após, impõe-se dizer: Bragança não precisa de “super-mulheres” nem de “super-heróis”, nem de tutelas autocráticas, nem quer ser refém do gabinete de uma só pessoa.
Bragança quer e precisa de pessoas comuns a governar para pessoas comuns, com verdade, humanidade, e governando em equipa na efetiva resolução dos problemas concretos das pessoas!
Numa palavra, gerir o Concelho, e não o Poder e a imagem própria!
Só isso, que é muito mais do que tudo o resto!
