FUTEBOL

“Fomos campeões e acabámos frustrados”: Irulegui faz balanço da época e admite refletir sobre o futuro

Publicado por Guilherme Moutinho em Qui, 06/04/2026 - 21:32

A derrota frente ao Leça FC, por 1-0, que ditou o fim do sonho da subida à Liga 3 para o Grupo Desportivo de Bragança, deixou um misto de orgulho e desilusão no treinador André Irulegui. No rescaldo da última jornada da Fase de Subida da Série A, o técnico analisou o encontro, elogiou o percurso realizado pela equipa ao longo da temporada e não escondeu a frustração pelo desfecho da época, admitindo ainda que irá refletir sobre o seu futuro no futebol.

Sobre a partida disputada em Leça da Palmeira, Irulegui explicou que a equipa procurou apresentar uma abordagem diferente da utilizada na jornada anterior, frente ao Vianense, na tentativa de surpreender um adversário que já tinha garantido a subida, mas que procurava assegurar o primeiro lugar da série. “Tentámos surpreender um pouco, não mudando completamente a estratégia, mas com uma abordagem diferente. Sabíamos da qualidade individual do Leça e tentámos subir uns metros, sem perder a pressão que trabalhamos habitualmente. Acabámos por fazer uma primeira parte muito bem conseguida”, afirmou.

O treinador considerou que os brigantinos estiveram à altura do desafio durante os primeiros 45 minutos, destacando o equilíbrio do encontro perante um adversário que classificou como “muito poderoso”. “Tivemos três oportunidades claras, eles também as tiveram, mas foi um jogo, no mínimo, olho no olho. Tudo encaminhou para que tivéssemos uma boa primeira parte e assim aconteceu”, referiu.

Contudo, o golo apontado por Avelino logo no início da segunda parte alterou por completo o cenário inicialmente traçado pela equipa transmontana. “O 1-0 cedo desmonta muito do que pretendíamos. Tivemos de assumir riscos, fazer alterações e subir linhas. Crescemos um pouco, mas quanto mais subimos, mais nos afastámos do nosso modelo e deixámos espaço na profundidade. Fazia parte do risco que tínhamos de correr”, explicou.

Apesar da derrota, Irulegui fez questão de enaltecer a entrega dos seus jogadores, que, segundo o técnico, mantiveram a identidade da equipa até ao último minuto. “Os jogadores deixaram a pele e o osso em campo, como foi apanágio durante todo o campeonato. Não há treinador que consiga fazer seja o que for sem uma matéria humana como aquela que eu tive. Tudo o que aconteceu durante a temporada só foi possível graças ao coração, à alma e à entrega deste grupo”, sublinhou.

“Uma época extraordinária”

Na análise à temporada, o treinador classificou o percurso do Bragança como “extraordinário”, recordando a evolução da equipa ao longo da competição, que culminou com a conquista do primeiro lugar na fase regular da Série A. “Houve um momento em que interiorizámos verdadeiramente aquilo que pretendíamos fazer. A partir daí fomos crescendo em tudo. Crescemos enquanto equipa, aperfeiçoámos o modelo de jogo e chegámos a um nível de detalhe muito elevado. Foi uma época extraordinária”, considerou.

Questionado sobre o sentimento dominante após o final da época, Irulegui resumiu-o a duas palavras: orgulho e frustração. “Orgulho por liderar uma equipa que representa o distrito, por ter ajudado a fazer uma cidade inteira acreditar, por liderar um grupo humano extraordinário. Tenho muito orgulho no caminho que fizemos e na forma como fomos conquistando o respeito e a confiança das pessoas ao longo da época”, afirmou.

Ao mesmo tempo, admitiu que o fim do sonho deixou uma marca profunda. “A frustração é gigante. É inacreditável uma equipa ser campeã da série e continuar a competir sem poder desfrutar desse momento. Fomos campeões da Série A e acabámos a época frustrados. O meu sentimento penso que espelha o de todo o grupo e de toda a cidade.”

Críticas ao modelo competitivo

Grande parte da reflexão do treinador incidiu sobre o formato competitivo do Campeonato de Portugal, que obriga os vencedores das séries da fase regular a disputar posteriormente uma fase de subida. Irulegui recordou que o Bragança terminou a fase regular no primeiro lugar, mas viu a promoção escapar-lhe para duas equipas que haviam terminado em segundo nos respetivos grupos. “As duas equipas que subiram à Liga 3 foram segundas classificadas na fase regular. Isso é um facto. Fomos campeões da série e não subimos. É algo que considero muito difícil de aceitar”, afirmou.

Na opinião do técnico, o modelo penaliza especialmente os clubes do interior, que enfrentam maiores limitações ao longo da temporada. “Para sermos campeões da Série A deixámos a pele e o osso. Depois pedem-nos para disputar outro campeonato contra equipas fortíssimas. Um clube do interior chega ao fim em primeiro lugar e não sobe de divisão. É muito frustrante.”

Apesar das críticas, o treinador frisou que as suas palavras não devem ser interpretadas como uma justificação para o insucesso. “Não é desculpa de quem perdeu. Eu já dizia isto muito antes. Falava disto quando ainda estávamos a lutar pelos primeiros lugares. É uma questão que, na minha opinião, deve ser discutida.”

Futuro em aberto

A forte carga emocional do final da temporada levou também André Irulegui a admitir que irá ponderar cuidadosamente os próximos passos da sua carreira. “Repenso toda a minha vida e tudo o que vai ser daqui para a frente. Não vou avançar muito sobre isso, mas tenho de refletir.”

O treinador garantiu que qualquer decisão será discutida primeiro com a direção do clube, com quem mantém uma relação próxima. “Tenho uma direção por quem tenho enorme respeito e nunca falaria publicamente de algo que ainda não foi conversado internamente. É muito cedo para dar uma resposta sobre a continuidade.”

Ainda assim, confessou que o desfecho da temporada o marcou profundamente. “Bragança fica tatuado. Tudo o que aconteceu esta época é impossível ignorar. No meu contexto, atingi o meu Everest enquanto treinador. Ver os jogadores e as pessoas tão frustrados depois de tudo o que fizeram é algo que me leva inevitavelmente a refletir sobre o futuro.”

Apesar da desilusão pelo objetivo falhado, André Irulegui deixou uma certeza: a época protagonizada pelo Grupo Desportivo de Bragança ficará entre as mais marcantes da história recente do clube, depois de uma campanha que levou a decisão da subida à Liga 3 até à última jornada e mobilizou os adeptos brigantinos em torno de um sonho que esteve vivo até ao fim.

Foto Arquivo: Guilherme Moutinho

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