A opinião de ...

Mas as crianças, senhoras,…..porque padecem assim? (2)

Tentando alertar para as condições de vida de muitas das nossas crianças, no texto publicado na página oito do N.º 3755 do MDB, do passado dia 7, entre várias outras questões levantadas, cada qual a mais pertinente, quando referi como sendo da especial responsabilidade dos poderes públicos, “ facultar aos jovens casais todas as condições para poderem optar por uma paternidade consciente e responsável “ e “ proporcionar às gravidas todas as condições para uma gravidez de sucesso”, estava bem longe de sonhar que, nessa mesma semana, um recém-nascido iria ser lançado ao lixo, imagine-se, pela sua própria mãe.
Sem, de forma alguma, pretender desculpar e, muito menos, condenar ou atirar a primeira pedra para ninguém, porque acontecimentos desta gravidade não podem deixar ninguém indiferente e de consciência tranquila, e porque esta mãe não é a primeira nem a única responsável, há questões que têm de ser levantadas, perguntas que exigem resposta e omissões que não podem ser ignoradas. Depois das coisas acontecerem, porque até podem dar audiências, é fácil pegar em dramas como este, abordá-los pela rama e dá-los a consumir a sociedades sem princípios, levianas, hipócritas e inquisitoriais. De todos aqueles, e foram muitos, que tanto se apressaram a condenar aquela mãe, e não menos os responsáveis deste país, que para evitar dramas como este, nada fizeram antes, nada fazem agora e outro tanto farão no futuro, espera-se exige-se uma análise profunda e honesta para encontrar respostas urgentes e eficazes para muitas das questões levantadas por este acontecimento.
Tendo presente que, como muito bem disse o Senhor Presidente da República, se tratou duma gravidez sofrida, em vez da onda de histerismo descabido, estúpido e irracional que se manifestou um pouco por todo o país clamando por justiça, seria bem mais humano e urgente tentar compreender a culpa que cabe a todos nós na tragédia que é a vida desta jovem sem abrigo, absolutamente só, vivendo (se a isto se chamar viver) na rua na maior miséria do mundo, numa tenda miserável, abaixo do nível de vida de muitos animais como gatinhos de estimação, cãezinhos de companhia etc., etc. É indispensável ter a ideia do que é levar uma gravidez até ao fim, longe da sua terra, sem assistência médica, sem abrigo, sem amparo e sem o apoio de ninguém. É urgente pensar no terror vivido pela jovem mãe que, como um animal vadio, quando mais precisava de apoio, foi escorraçada pela sociedade que nunca a apoio. Onde está a vergonha desta gente que aparece agora tão preocupada com o futuro do menino? Será que, em todas as suas vidas, perderam um minuto que fosse para tentarem compreender como é que no século vinte e um, neste país que é o nosso, ainda é notícia de primeiras páginas o abandono dum bebé filho duma mãe sem abrigo? Alguém refletiu que, ao contrário da sorte de muitos animais, para os quais se reconheceu o direito de as suas fêmeas parirem em clínicas especializadas, com todo o requinte, conforto e segurança, serem assistidas por enfermeiros especializados e médicos veterinários, esta mãe se viu privada de tudo e foi abandonada por todos? Acaso já alguém pensou se ela, na hora mágica de ter o seu filho, confrontada com a miséria cruel e humilhante de não contar com ninguém e não dispor de nada para o receber, entre dar-lhe para berço a dureza gélida do cimento do passeio e para aconchego o negrume da noite, num ato de desespero incontrolado, não teria visto naquele contentor do lixo o único sitio que a sorte lhe reservara para acolher o seu menino? Antes do julgamento, exigem-se respostas para a infelicidade desta mãe e para o futuro deste menino.

Edição
3756