Património ao serviço de pantominas
A leitura do texto de Jorge Novo na última edição deste jornal (25/06/2026), a propósito das “Novas 7 Maravilhas de Portugal”, motivou-me a escrever estas linhas sobre patrimónios e “o mundo em que vivemos”, parafraseando o autor. Tem razão Jorge Novo quando afirma que o Castelo de Bragança e a Domus Municipalis, ambos monumentos nacionais, existem e a sua valorização, a sua importância ou relevância não dependem de qualquer zeitgeist, de qualquer moda, tendência ou espuma dos dias. E é precisamente sobre a espuma dos dias que importa reflectir, pois aquilo a que temos vindo a assistir um pouco por todo o lado, é à utilização dos diferentes patrimónios – edificados, materiais e até intangíveis, para fins que, eu diria, no mínimo discutíveis. A minha percepção é que o património está ao serviço, quase em exclusividade, de interesses exógenos e difusos... mediáticos, turísticos, afirmações bairristas, bandeiras políticas e/ou partidárias, questões de identidade e alteridade (busca de “carisma”, “notoriedade”, ou “prestígio”, ou “distinção”), tematização dos territórios, disneylização, espectacularização, entre outros. Por outro lado, são bem conhecidas as diferentes motivações para os processos de “activação patrimonial” (Llorenç Pratts, 1998), enquanto escolha de determinados referentes culturais e sua exposição de forma alternativa, sacralizando-os e atribuindo-lhes um carácter simbólico com capacidade para representar identidades. O mesmo autor relembra-nos que não patrimonializa quem quer, mas apenas quem tem o poder para o fazer. E também aí, Jorge Novo, com propriedade, se refere à circunstância de autarca e às dificuldades, bloqueios e resistências que experimentou na gestão e cuidado dos dois monumentos maiores da cidade e concelho de Bragança. Claro que a reflexão profunda que sugere ou propõe sobre esses e outros bens patrimoniais, é mais do que importante, é urgente, mas não no tal mundo em que vivemos, em que ninguém tem mais do que três minutos para se dedicar a algo e que as gerações mais novas estão a ser programadas para uma misantropia social, desqualificada de qualquer sociabilidade e empatia, com apetência para o efémero e consumos imediatos. Com isto não quero transparecer um pessimismo geracional, tampouco criticar essas gerações mais novas. Aquilo que não consigo entender é a negligência e o abandono a que muito do nosso património está votado. Não consigo entender o sucesso de concursos ou programas televisivos que se apropriam desses monumentos, e muito menos entendo os responsáveis do sector e os autarcas que, não só se envolvem nessas dinâmicas, como investem erários públicos e “acreditam” no valor de tais pantominas, tudo em troca de “gostos” ou “corações vermelhos”, de audiências e de visualizações. Também não percebo, e aí discordo de Jorge Novo, do tal orgulho que um cidadão pode sentir pelo facto de um monumento da sua terra vencer um concurso online ou televisivo. É que em cultura, mas também em património, não existe hierarquia, não existe melhor ou pior, mais evoluído ou menos evoluído, aquilo que existe é a diferença e a sua valorização é intrínseca. Termino, regressando ao texto de Jorge Novo, para afirmar que as luzes do castelo de Bragança e da Domus Municipalis estão e vão continuar acesas, independentemente de qualquer resultado ou eleição em conteúdos ou programações de entretenimento ou alienação social.
