A opinião de ...

Até para ir para o céu, é preciso passar pela serra

Quem nasce no nordeste profundo brigantino sabe que a vida se rege pelos sinos. No eixo sul, no pé da Serra da Nogueira, a fé caminha em espiral, marcando os meses numa matriz cristã inscrita na alma do povo.
O ciclo abre com as Cinzas, a Quaresma, a Páscoa e, a Visita Pascal, depois vem o 3 de maio e, a novena da Santa Cruz, em Cabeça-Boa. Cinquenta dias após a Páscoa, a novena do Pentecostes em São Pedro de Sarracenos, logo depois o novenário prossegue em Samil com o Santo António a 13 de junho. A 29 de junho, honra-se o padroeiro em São Pedro de Sarracenos. Em 15 de agosto, o compasso acelera com a padroeira de Samil, a Senhora da Assunção. Em Alfaião, as novenas da Senhora da Veiga acolhem os emigrantes, no 3.º domingo de agosto. São Roque assinala-se a 16 de agosto também em Samil e, nesse mês ainda a 24 corre-se ao São Bartolomeu. Coroa-se o verão no alto da «aldeia da novena», cumprindo o «fique»* de 29 de agosto até à festa da Senhora da Serra, a 8 de setembro. No outono, Santa Teresinha (1 de outubro), a Senhora do Rosário (7 de outubro) e, o São Judas Tadeu (28 de outubro) protegem Samil, guardando-nos o fôlego até ao São Martinho (11 de novembro) padroeiro de Alfaião, findo o qual o Natal e a refeição comunitária de bacalhau no Santo Estêvão nos aquecem.
Pelo meio atrapalha-se o mês de maio, o terço comunitário, as confissões na Quaresma e, toda uma “linguagem do coração”, entre sufrágios e muitíssimos funerais, que começam a deixar os párocos em verdadeira arritmia. Estes mistérios vivos, da piedade e da liturgia, perdem gente e, fôlego.
A génese deste esquema de fé está nas velhas abadias. Os párocos rodavam de festa em festa, num modelo que combatia o isolamento, dava sustento e, criava fraternidade sacerdotal. Valorizava-se a liturgia, o canto, a saúde e a vida espiritual, na ausência do SNS, os Santos eram o Ministério da Saúde contra as pestes. Pese o dinamismo juvenil, que persiste em animar a todo o custo a festa, falta ardor que suporte esta “atividade missionária espontânea”, que derreta o gelo, que a implacável demografia agravou, levando leigos e não poupando nos clérigos.
Só o culto, a “via da beleza”, a dignidade do altar, a verdade dos sacramentos, o canto que encanta as novas gerações e rejuvenesce assembleias, a verdade e autenticidade de uma vida cristã, que incremente uma maior participação ativa dos leigos, ajudam a contrariar a insana demografia! As confrarias, como a da Santa Cruz, ou da Senhora da Serra, continuam a ser pilares desafiadores de atualização e renovação. Mais do que carregar andores, como quem faz uns minutos de ginásio, precisamos de discípulos. Unindo os avós que guardam a memória e os netos que trazem a energia, gera-se corresponsabilidade. Provamos que a Igreja continua viva e que aqui, até para ir para o Céu, é preciso passar pela Serra.

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