A opinião de ...

A Porta Entreaberta

A eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos da América trouxe, entre outras consequências, com o mesmo sentido, um corte radical e profundo nos fundos públicos de apoio à Investigação Científica em qualquer das suas componentes, Fundamental, Translacional e Aplicada, com especial repercussão na primeira por ser, tradicionalmente, a que mais apoio requer do erário público. Esta atitude desencadeou uma natural onde de protesto e desânimo no seio da forte comunidade científica americana alertando paras as óbvias consequências futuras na liderança científica das terras do tio Sam. Do lado de cá do Atlântico após um primeiro momento de estupefação e receio pela continuidade de alguns projetos financiados com verbas oriundas dalém mar, despertou, de seguida, a expetativa de poder aproveitar a situação para atrair, para este lado, as principais cabeças pensantes, uma fuga de cérebros idêntica, mas de sentido contrário à que caracterizou o final da Segunda Guerra Mundial que esteve na base do desenvolvimento tecnológico e os inegáveis progressos da ciência nos mais diversos domínios do conhecimento. Tanto assim que a União Europeia lançou um programa “Choose Europe for Science” para recrutar investigadores de topo, residentes nos Estados Unidos, dotando-o inicialmente com uma verba de 500 milhões de euros que seriam reforçados, mais tarde, com uma verba adicional da mesma ordem de grandeza.
Embora tenha havido resultados, certamente positivos, porém o alcance, até à data, está longe de se aproximar dos objetivos esperados. É verdade que o interesse pela ciência em solo europeu cresceu e que surgiram várias oportunidades de colaboração que, de outra forma, não atingiriam tal grau e amplitude. Mas não se assistiu à debandada geral dos grandes crânios como, ingenuamente, se chegou a acreditar. Tanto assim que quando surgem candidaturas a este financiamento, aparece, frequentemente, em off, a recomendação de tratar de assegurar que as verbas requeridas não podem servir para conceder reformas douradas a cientistas em final de carreira, nem oferecer “el dorados” para investigadores pouco acima da mediania. Ou seja, a porta que se julgava escancarada estava afinal semicerrada.
Ora, e isto, felizmente, não é novidade no campo científico, se o resultado não corresponde exatamente ao pretendido a solução passa por reanalisar os pressupostos e tratar de encontrar a melhor solução de forma a maximizar a realidade. Tenho conhecimento detalhado de um projeto que ilustra perfeitamente a solução adequada. Não podendo, nesta fase, por razões óbvias, dar mais pormenores sobre o objetivo, posso, contudo, falar do processo em si. Um dos promotores é um Prémio Nobel cuja vinda para este lado do oceano seria obviamente bem acolhida, não o querendo fazer propõe-se liderar o processo e enviar para Lisboa alguns dos melhores dos seus melhores pupilos, ainda em início de carreira. Serão eles que, estabelecendo-se na capital portuguesa irão concretizar a transferência de conhecimento, dando-lhe cunho europeu e desenvolvendo o ecossistema tecnológico e científico. Com tempo se colherão os frutos desta alteração significativa do investimento público. Importa que as autoridades europeias não se deixem influenciar negativamente pelos resultados modestos, no imediato, da sua ação e que persistam em prolongá-la, no futuro pois é essa a direção e o timing, não sendo o desejável, é o possível.

Edição
4081

Oferta para Assinantes

Cartão Moeve