A opinião de ...

a arquitectura transmontana a gostar dela própria – Que jardineiros da paisagem?

De acordo com a definição saída da Convenção Europeia da Paisagem, realizada em Florença em 2000 e ratificada por Portugal em 2005, “paisagem designa uma parte do território, tal como é apreendida pelas populações, cujo carácter resulta da acção e inter-acção de factores naturais e/ou humanos”. Como resulta do ‘casamento’ entre o homem e a natureza, mais do que um conceito estático e exclusivamente associado a preconceitos sobre o que é suposto ser natural – normalmente idealizado de um passado que teimamos em reclamar, como se fosse perfeito - a paisagem é uma construção e depende sempre da interpretação de quem a vê. Nas palavras de Marc Augé, uma paisagem existe apenas na observação de quem a descobre, é o espaço que um homem descreve a outros homens.
Como ‘coisa’ em permanente transformação, será importante perceber ou clarificar quem são, afinal, os construtores da paisagem transmontana. Sabemos dos factores naturais que condicionaram a ocupação humana deste território. E também sabemos da divisão administrativa das freguesias e paróquias, herdadas da Idade Média. O problema é a indefinição na gestão deste vasto território, maioritariamente rural, para o qual falta gente implicada e motivada. A economia rural tradicional, de tão precária, não fez mais do que empurrar as gentes para longe. Não é de grande utilidade para o presente e futuro do território, alimentar um discurso de saudosismo selectivo. Talvez fizesse sentido questionar a viabilidade do minifúndio e do modelo administrativo das freguesias. Dito de outro modo, qual o futuro para um território sem gente dentro? Quem serão os construtores da paisagem que iremos convencer a cá ficar?
Antigamente, quando havia jardineiros da paisagem, os produtos da agricultura e da pecuária, serviam para matar a fome. Agora, são património imaterial. Vivemos neste limbo meio nostálgico do passado, retirando-lhe aquilo que é feio, como se dantes tudo fosse belo. Miqui Otero diz que a nostalgia é a gentrificação da memória. A título de exemplo, é muito curioso que idealizemos a imagem a preto e branco das casas antigas, feitas de pedra, madeira e cal, mas esqueçamos a sua falta de conforto e de condições para um habitar digno. Talvez seja essa a razão para que, colectivamente, sejamos incapazes de implementar verdadeiras políticas de reabilitação nas nossas aldeias ou zonas antigas.
Para se poder falar em ordenamento do território, deveremos programar prospectivamente as acções que visem a recuperação e valorização da paisagem transmontana. Na maior parte dos casos, vivemos de planeamento oportunista, à espera de um financiamento exterior. As disposições constantes na Convenção Europeia da Paisagem aplicam-se à totalidade do território e incidem sobre as áreas naturais, rurais, urbanas e peri-urbanas. Cada um dos países e regiões que ratificaram a Convenção, comprometeu-se a integrar a paisagem nas suas políticas de ordenamento do território e de urbanismo, estabelecendo os instrumentos que visem a sua gestão e protecção. Se uma das maiores riquezas do nosso país é a diversidade entre regiões, que tem a sua origem em factores naturais e se reflecte em todas as manifestações culturais e identitárias, de que forma é que a legislação regional integra a paisagem e os valores únicos da nossa paisagem? Que políticas locais definem a paisagem que queremos ter e a melhor forma de lá chegar? Talvez depois de dadas as respostas para estas perguntas, seja mais fácil encontrar novos jardineiros.

Edição
4109

Oferta para Assinantes

Cartão Moeve