A opinião de ...

O Fatalismo dos incêndios em Portugal

egundo dados do European Forest Fire Information (EFFS), entre 2000 e 2017, Portugal foi o país da União Europeia (28 estados Membros) com o maior número de área ardida. Só para termos uma ideia da dimensão do problema, de registar que, no pretérito mês de julho, em 2/3 dias, arderam em Oleiros mais de seis mil hectares, entre área florestal e agrícola.
Estaremos a ser ingénuos se acreditarmos que esta praga, que, ano após ano, se repete no período estival, se deve, na maioria dos casos, às alterações climáticas, às condições atmosféricas (calor excessivo, humidade, aos ventos desfavoráveis e às trovoadas). É difícil acreditar que as queimadas e os churrascos imprudentes, que não acontecem com tanta frequência como se julga, sejam a explicação para que o país se encontre todos os verões em chamas, qual fatalidade.
De facto, foge ao entendimento de qualquer comum mortal que este país não se consiga livrar deste inferno, porquanto é sabido que o reforço de verbas provenientes do Orçamento de Estado é cada vez mais generoso: há mais meios aéreos e terrestes para o combate aos incêndios; os sistemas de informação para detenção remota são cada vez mais sofisticados e eficazes, há cada vez mais doutores a estudar a orografia do terreno; e, a pedido de várias famílias, a tropa saiu dos quartéis para dar uma preciosa ajuda.
Diz-se, à boca fechada, em conversa de café, que os incêndios são um grande negócio em Portugal. Consta que, sem que ninguém o consiga provar (ou esteja disposto a fazê-lo), existe uma teia de interesses envolta em nublosa, que alimenta o lobby dos madeireiros do eucalipto e das empresas que se dedicam à reflorestação. Há, no entanto, quem, nesta matéria, arrisque invocar o adágio popular “moinho parado não ganha maquia”.
Partindo do princípio (contrariando, assim, o meu natural optimismo) que o problema em questão é, pela delicadeza que encerra, irresolúvel – os bombeiros, os verdadeiros mexilhões, credores duma impagável dívida de gratidão, vão continuar a tombar na luta desigual, na defesa de vidas humanas e seus pertences - , parece-me uma excelente ideia instituir oficialmente a época dos incêndios, tal como acontece com a época da caça, a época da pesca, a época balnear e outras que tais. Declarada aberta, entre o início do mês de Junho e finais de Setembro, a mesma teria a cobertura televisiva, em directo, num formato do género “somos Portugal”, mas com o acrescento do “… em Chamas”.
Teríamos então a Isabel Figueiras e o Carlos Malato a reportar, do Alto da Ferradosa (Formil), em Vale de Frades, em Melhe, em São Joanico, em Gebelim e outras terriolas, os incêndios que ali lavrassem, não no “teatro de operações”, mas no “cinema de operações”, com direito a pipocas. Os “espectáculos” teriam, pois, a inestimável participação do Zé Amaro, da Ágata, da Micaela, da Maria Leal, etc., e respectivas bailarinas.
Porque, devido à dinâmica e à logística destes Directos, que são previamente preparados, era necessário fazer um “programa das festas”, onde seria anunciado o dia do incêndio e as aldeias “contempladas”, em estreita colaboração, obviamente, com os pirómanos. Haveria lugar, também, como não poderia deixar de ser, à participação, via telefónica, em directo, dos telespectadores que se quisessem habilitar ao magnifico automóvel.
Finda a época dos fogos, seria interessante conceber, à semelhança do que já aconteceu com a temática da gastronomia, das paisagens e monumentos, um concurso que permitisse apurar quais as 7 maravilhas dos incêndios em Portugal.
Surreal? sim, mas não tanto como vermos alguém atear fogo à nossa casa (entenda-se, ao país) e cruzar os braços, resignado e impotente, como se de uma inevitabilidade se tratasse.

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