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A vitória de Seguro e o fracasso estratégico de Ventura

No dia 8 de fevereiro de 2026, Portugal viveu a segunda volta das eleições presidenciais, um momento que, apesar de previsível, carregou consigo um manto de incertezas. Após a primeira votação, os eleitores foram chamados às urnas para escolher entre António José Seguro e André Ventura. A vitória de Seguro era amplamente antecipada, mas questões como o possível aumento da abstenção, a taxa de rejeição de Ventura e a capacidade deste último de superar o score eleitoral de Montenegro pairavam no ar. Estas não eram meras curiosidades eleitorais, refletiam ansiedades profundas sobre o futuro do nosso regime político e a estabilidade da atual legislatura, num país que em menos de um ano realizou três atos eleitorais e viu a nova direita radical crescer de forma expressiva.
Os episódios climatéricos extremos que assolaram Portugal nas últimas semanas desviaram o foco mediático da campanha. Surgiram dúvidas sobre o interesse dos eleitores, especialmente daqueles cujas vidas foram arrasadas pela fúria da natureza. André Ventura, consciente do potencial desmobilizador destas catástrofes, tentou deslegitimar a vitória iminente do adversário, atribuindo ao “sistema” – que, segundo ele, Seguro representava – a culpa por uma abstenção que previa colossal. A estratégia falhou redondamente. Apesar do infortúnio que afetou milhares de portugueses, a taxa de participação foi notavelmente alta, demonstrando que, mesmo em tempos de crise, o nosso povo não abdica do seu dever cívico. Imagens comoventes de materiais eleitorais transportados por barcos ou a pé em zonas inundadas emocionaram todos os que acreditam na democracia como pilar da nossa construção nacional.
Outra incógnita era o grau de rejeição de Ventura, que funciona como barómetro da adesão aos valores democráticos. As sondagens apontavam para uma rejeição elevada, tornando a sua eleição improvável, mas as sondagens já nos pregaram partidas no passado. A ansiedade cresceu quando o PSD e o CDS se recusaram a apoiar explicitamente qualquer candidato e vários deputados e membros do Governo da AD evitaram declarar apoio a Seguro. No entanto, as sondagens acertaram, dois terços dos eleitores rejeitaram uma revisão radical do sistema de governo, o abandono do papel moderador do Presidente da República e uma política baseada na beligerância permanente entre “nós” e “os outros”. Os eleitores confirmaram, de forma esmagadora, a fé no sistema político construído nos últimos 50 anos, com acertos e erros, mas sempre coletivo.
Era público que Ventura ambicionava afirmar-se como líder da direita portuguesa, usando o seu resultado para condicionar a agenda do Governo e, quiçá, precipitar o fim da legislatura. Para tal, precisava de mobilizar o eleitorado de direita que votara noutros candidatos na primeira volta – os tradicionais apoiantes do PSD, CDS e IL. Falhou também neste objetivo, não logrando atrair a maioria desses votos e ficando aquém do número absoluto alcançado pela AD que sustenta o atual Governo. Embora a sua evolução face às presidenciais anteriores seja impressionante, os resultados finais representam um falhanço estratégico em toda a linha.
Seguro emergiu com legitimidade inquestionável, consolidando-se como o novo líder da esquerda. Os portugueses reafirmaram a adesão ao demoliberalismo, rejeitando o modelo iliberal proposto por Ventura. Montenegro mantém-se como figura de proa da direita, mas politicamente enfraquecido, atendendo ao desaire na primeira volta e ao desgaste acelerado do Governo, agravado por ministros sem arte nem ciência política. Os resultados não condenam irremediavelmente a legislatura, mas sinalizam que os portugueses esperam e exigem mais. O Executivo deve ponderar uma reforma orgânica, um refrescamento na sua composição e a adoção de uma agenda reformadora que mobilize as forças vivas nacionais. 
Num ano marcado por crises climáticas e instabilidade política, os eleitores mostraram que, apesar das decepções, confiam no sistema. Cabe agora aos líderes políticos corresponder a essa confiança antes que o descontentamento se transforme em algo mais profundo e os valores que no domingo celebrámos se percam de forma irremediável.

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