A opinião de ...

Ecoando a Fratelli Tutti (VI)

No Novo Testamento, menciona-se um fruto do Espírito Santo (Gal 5, 22), a benevolência, que indica o apego ao bem, a busca do bem; mais ainda, é buscar aquilo que vale mais, o melhor para os outros: o seu amadurecimento, o seu crescimento numa vida saudável, o cultivo dos valores e não só o bem-estar material (112).
A nível interpessoal, o querer bem implica que uma pessoa, embora não esqueça a ofensa recebida, opte pelo perdão, não alinhando na mesma força destruidora que a lesou. Assim se quebra um círculo vicioso, não continuando a injetar na sociedade a energia da vingança, que nunca sacia verdadeiramente a insatisfação das vítimas nem serve para sentir que o dano fora reparado (251).
O querer o melhor para os outros leva o papa a lembrar que a tradição cristã nunca reconheceu como absoluto ou intocável o direito à propriedade privada (120), e lava-o igualmente a destacar que a atividade dos empresários é uma nobre vocação, orientada para produzir riqueza e melhorar o mundo, e que as capacidades dos mesmos empresários, dom de Deus, deveriam orientar-se claramente para o desenvolvimento das outras pessoas e para a superação da miséria (123).
A nível internacional, a benevolência faz-nos reconhecer o ridículo dos confins e das fronteiras dos Estados como linhas inaceitáveis quando circunscrevem pessoas que veem os seus direitos violados (121). Por isso, o papa fala duma nova rede nas relações internacionais – um novo ordenamento jurídico, político e económico mundial (138) – e pede que, embora se mantenha o princípio de que toda a dívida legitimamente contraída deve ser paga, a maneira de cumprir este princípio não deve comprometer a subsistência e o crescimento dos países (126), nem deve destruir as culturas que lhe são próprias, gerando assim uma esclerose cultural (134). Francisco, na senda do papa João XXIII e da Pacem in Terris, lembra ainda que hoje caiu por terra toda a argumentação que legitimava a guerra justa. Na verdade, diante da força destruidora das armas nucleares, químicas e biológicas e das enormes e crescentes possibilidades que oferecem as novas tecnologias, conferiu-se à guerra um poder destrutivo incontrolável (258), acrescentando intensidade ao grito: nunca mais a guerra!
Como testemunho do querer-se bem entre civilizações, o papa, unido ao Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb, lembra que o relacionamento entre Ocidente e Oriente é uma necessidade recíproca indiscutível, para que ambos se possam enriquecer mutuamente com a civilização do outro através da troca e do diálogo das culturas (136). Na verdade, o caminho não passa por decapitar ou por capitular, passa, sim, pela espiritualidade da comunhão. Buscar a Deus com coração sincero, desde que não se ofusque com os nossos interesses ideológicos ou instrumentais, ajuda a reconhecer-nos como companheiros de estrada, verdadeiramente irmãos (274). Fraternidade, Amizade e Paz entre Civilizações, não Choque de Civilizações!
Já no final da encíclica, o papa, depois de afirmar que Deus não precisa de ser defendido por ninguém e não quer que o Seu nome seja usado para aterrorizar as pessoas, deixa um apelo à paz, à justiça e à fraternidade.

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3809